domingo, 30 de dezembro de 2012

Que É Filosofar?, de Josef Pieper


Li, de ontem para hoje, um pequeno livro que encontrei num sebo, Que É Filosofar?, de Josef Pieper.

Pieper começa afirmando que filosofar é transcender o cotidiano, ultrapassar o mundo do trabalho e olhar para as coisas de uma maneira mais profunda, perguntando-se por quê, em vez de como. Assim, a filosofia se parece com a poesia, com a religião, com o arrebatamento erótico e com a experiência extrema da proximidade da morte.

Ele diz que uma característica distintiva do ser humano é o fato de se relacionar com a totalidade do ser, ao contrário dos animais, que só se relacionam com seu meio ambiente imediato. O homem é capaz de olhar para as coisas do cotidiano e enxergar o não-cotidiano, ou seja, admirar-se. Essa admiração é o princípio da filosofia.

Ao final, Pieper discute a relação entre filosofia e teologia. Aqui, encontro a mesma dificuldade que vi ao ler Crise e Utopia, de Martim Vasques da Cunha. Os dois autores possuem uma visão religiosa da filosofia. Tenho a impressão de que essa visão impõe pressupostos que dificultam o diálogo com quem não concorda com eles.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Viagem do Peregrino da Alvorada, de C. S. Lewis

Aproveitando férias, terminei de ler "A Viagem do Peregrino da Alvorada", de C. S. Lewis, para minha filha. Já lemos juntos "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa" e "Príncipe Caspian", das Crônicas de Nárnia, "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry e "Alice no País das Maravilhas" e "Através do Espelho", de Lewis Carroll.

Conforme o livro foi chegando ao fim, a ansiedade dela foi aumentando. Como vai terminar? Faltam poucas páginas e ainda tem tanta coisa para se resolver...

É um prazer infinito poder dividir com ela a paixão pelos livros.

Quero Liberdade (cap. VI), de Rose Wilder Lane

VI

Quando perguntei a mim mesma: “Sou verdadeiramente livre?”, comecei lentamente a entender a natureza do homem e da situação humana neste planeta. Entendi finalmente que todo ser humano é livre; que sou dotada pelo Criador de liberdade inalienável enquanto sou dotada de vida; de que minha liberdade é inseparável de minha vida, uma vez que a liberdade é a natureza de autocontrole do indivíduo. Minha liberdade é meu controle de minha energia vital, pelos usos sobre os quais, portanto, somente eu sou responsável.

Mas o exercício dessa liberdade é outra coisa, uma vez que, em qualquer uso de minha energia vital, encontro obstáculos. Alguns desses obstáculos, como o tempo, o espaço, as condições climáticas, são eternos na situação humana neste planeta. Alguns se impõem por si mesmos e vêm da minha própria ignorância das realidades. E, durante os anos em que morei na Europa, uma enorme quantidade de obstáculos foi impingida a mim pelo poder de polícia dos homens que governam os Estados europeus.

Considero que é uma verdade evidente por si mesma que todos os homens são dotados pelo Criador de uma liberdade inalienável, de autocontrole individual e de responsabilidade por pensamentos, palavras e atos, em qualquer situação. Até que ponto essa liberdade natural pode ser exercida depende da quantidade de coerção externa imposta sobre o indivíduo. Nenhum carcereiro pode obrigar um prisioneiro a falar ou agir contra a vontade dele, prisioneiro, mas correntes podem impedi-lo de agir e uma mordaça pode impedi-lo de falar.

Os americanos têm mais liberdade de pensamento, de escolha e de movimento que os outros povos jamais tiveram.

Não herdamos limitações de casta para restringir nossa gama de desejos e ambições à classe em que nascemos.

Não temos uma burocracia governamental para monitorar cada movimento nosso, para registrar quais amigos ligam para nossa casa e a que horas eles chegam e saem, para que a polícia esteja plenamente informada caso sejamos assassinados. Não temos funcionários públicos que, no interesse do recolhimento justo e equitativo dos impostos sobre a gasolina, param nosso carro e medem o conteúdo do tanque quando entramos numa cidade americana ou saímos dela.

Não somos obrigados, como são os europeus do continente, a levar o tempo todo um cartão de identificação emitido pela polícia, renovado e pago a intervalos regulares, onde consta nossa foto propriamente carimbada e nosso nome, idade, endereço, parentesco, religião e ocupação.

Os trabalhadores americanos não são classificados; não carregam cartões emitidos pela polícia onde os empregadores registram cada dia em que eles trabalham; não têm locais de diversão separados dos das classes mais altas e sua diversão não está sujeita a interrupções por policiais fazendo batidas para inspecionar seus cartões de trabalhadores, e agindo a partir da premissa de que qualquer trabalhador cujo cartão mostre que ele não trabalhou na semana anterior é um ladrão.

Em 1922, como correspondente estrangeira em Budapeste, acompanhei uma dessas batidas policiais. O Chefe de Polícia mostrava a um colega da Scotland Yard em visita à Hungria os mecanismos de seu trabalho. Saímos às dez da noite, com sessenta policiais que se moviam com a bela precisão dos soldados.

Cercaram uma área no bairro operário da cidade e vieram fechando o cerco, enquanto o Chefe explicava que essa era a rotina de sempre; todo o bairro era varrido dessa maneira a cada semana.

Aparecemos de repente nas entradas dos bares de operários, lugares sujos com serragem sobre o chão de terra, onde um músico tentava tristemente tirar música de uma rabeca barata e homens e mulheres em andrajos cinzentos sentavam-se em mesas descobertas e bebericavam economicamente cerveja ou café. Seu terror ao ver os uniformes era abjeto. Todos se levantavam e humildemente erguiam as mãos. Os policiais sorriam com o prazer peculiar dos seres humanos de posse de tão grande poder.

Vasculhavam os bolsos dos homens, zombando um pouco de um objeto ou outro. Achavam os cartões de trabalho, inspecionavam-nos, enfiavam de volta nos bolsos. Ao ouvir a abrupta liberação, os homens se deixavam cair nas cadeiras e enxugavam a testa.

Em toda parte, alguns cartões não passavam na inspeção. Nenhum empregador os havia carimbado nos últimos três dias; homens e mulheres eram levados ao camburão.

Aqui e ali, quando entrávamos, alguém tentava fugir pela porta dos fundos ou pela janela e caía, é claro, nas mãos da polícia. Podíamos ouvir os policiais rindo. O Chefe recebeu os cumprimentos do detetive britânico. Tudo foi feito com perfeição, ninguém escapou.

Várias mulheres protestavam freneticamente, chorando, implorando de joelhos, de maneira que quase tinham de ser carregadas para o camburão. Uma jovem lutou, gritando horrivelmente. Foram necessários dois policiais para contê-la; não eram brutos, mas quando ela mordeu as mãos que eles colocavam nos braços dela, um terceiro lhe deu um tapa no rosto. No camburão, ela continuou gritando como louca. Eu não entendia húngaro. O Chefe explicou que algumas mulheres resistiam a receber cartões de prostituta.

Quando uma empregada doméstica ficava vários dias sem trabalho, a polícia tomava o cartão que a identificava como trabalhadora e que permitia que ela trabalhasse; dava em troca um cartão de prostituta. Homens que não tinham trabalhado recentemente eram condenados a uma pena curta de prisão por roubo. Obviamente, dizia o Chefe, se não estavam trabalhando, eram prostitutas e ladrões; como poderiam subsistir de outra forma?

Talvez com suas economias? – sugeri.

Os trabalhadores só ganham o suficiente para viver cada dia, não têm como economizar, disse o Chefe. É claro, se por um acaso extraordinário algum deles ganhou um pouco de dinheiro honestamente e puder provar, o juiz irá soltá-lo.

Tendo vasculhado todos os bares, começamos a olhar as pensões. Morei em subúrbios em Nova York e São Francisco. Os americanos que não viram os subúrbios europeus não têm a menor ideia do que é um subúrbio.

Até o amanhecer, a polícia subia pelas pensões imundas e descia até seus porões, agitando a massa de esfarrapados e exigindo os cartões de identificação dessas pessoas de olhos arregalados. Não prendemos tantos desempregados lá, porque é mais caro dormir sob um teto que sentar num bar; o simples fato de que tinham abrigo indicava que trabalhavam. Mas a polícia era minuciosa e acordou todo mundo. Trabalhavam quietos e de bom humor; essa batida não tinha nada da violência de uma operação da polícia americana. Quando uma porta trancada não se abria, a polícia tentava todas as chaves-mestras disponíveis antes de arrombá-la.

O homem da Scotland Yard dizia: – Admirável, sir, admirável. Os sistemas policiais do continente são maravilhosos, realmente. Vocês tem controle absoluto aqui. – Então falou seu orgulho britânico, reprovativamente, como sempre fazia. – Nunca poderíamos fazer algo assim em Londres, vocês não sabem? A casa de um inglês é seu castelo, e tudo o mais. Temos de ter um mandado antes que possamos vasculhar recintos ou tocar na pessoa de alguém. Limitação irracional, sabe? Não temos nada parecido com o seu controle daqui do continente.

Foi a única busca policial de um bairro operário que presenciei na Europa. Não acredito que a sujeição ao controle governamental em outros lugares chegue ao ponto de forçar mulheres a se prostituir e pode ser que isso não aconteça mais na Hungria. Mas esse sistemático cerco e busca em bairros operários ocorria normalmente em toda a Europa, e sei que se considerava um fato real que o desemprego forçava as pessoas para além do limite entre a privação e o crime.

Como qualquer habitante da Europa, fui parada muitas vezes a caminho de casa por dois policiais educados que pediam para ver minha carteira de identidade. Era tão comum que não era preciso explicar. Sabia que meu bairro de classe média, plenamente respeitável, era cercado, simplesmente por questão de rotina policial, e todo mundo tinha que mostrar a identidade emitida pela polícia.

De todo modo, desconfio que a criminalidade não fosse menor nessa Europa controlada pela polícia que na América. Muitos crimes eram contados em parágrafos curtos com letra pequena em qualquer jornal. Não havia nenhum lugar numa cidade americana em que eu tivesse medo de ir sozinha à noite. Sempre houve muitos bairros de cidades europeias que eram realmente perigosos depois do pôr-do-sol, e vários tipos de criminosos que matariam qualquer homem, mulher ou criança bem vestidos, só para ficar com as roupas.

O mais terrível é que o motivo por trás de toda essa supervisão do indivíduo é um bom motivo, um motivo racional. Como poderia um governante manter a ordem social sem ela?

Existe certo instinto de método e autopreservação que permite que aglomerações de seres humanos livres saiam de um lugar de alguma maneira. Nenhuma multidão deixa um teatro com eficiência, nem sem desconforto, impaciência e tempo perdido, mas normalmente chegamos à calçada sem brigar. Ordem é outra coisa. Todo professor sabe que não dá para manter a ordem sem regras, supervisão e disciplina. É uma questão de grau; quanto mais rígida e autocrática a disciplina, maior a ordem. Toda ordem social genuína exige, como primeiro fundamento, a classificação, regulamentação e obediência dos indivíduos. Sendo os indivíduos o que são, infinitamente variados e cheios de vontades, a obediência tem de ser imposta.

A grande perda num ambiente de ordem social é de tempo e energia. Ficar sentado em salas de espera até que se possa entrar numa fila para chegar à mesa de um burocrata parece, para qualquer americano, uma perda mortal e viver nessa ordem social encurta a vida das pessoas. Também fora do escritório do burocrata, essa regulamentação pelo bem público constantemente obstrui toda ação. É tão impossível mover-se livremente na vida diária quanto ziguezaguear ou apressar o passo quando se segue uma procissão.

Na América, não existem decretos comerciais dificultando a atividade de cada balconista ou cliente, como acontece na França, de maneira que se gasta meia hora a mais em cada compra numa loja de departamentos. Os comerciantes franceses são tão inteligentes quanto os americanos, mas não podem instalar tubos de vácuo e um sistema ágil de contabilidade num caixa central. – Para quê? – eles perguntariam a você. Eles ainda seriam obrigados a registrar cada compra por escrito num livro, na presença do comprador e do vendedor, conforme decretou Napoleão.

Também era um decreto inteligente, quando Napoleão o emitiu. Os comerciantes franceses poderiam mudá-lo? – É muito engraçado – diziam eles sem nenhuma vontade de rir. O decreto estava emaranhado em cem anos de complicações burocráticas e, além disso, imagine quanto desemprego sua revogação causaria entre aqueles caixas cansados, molhando a pena na tinta especificada, registrando a data e hora numa nova linha e perguntando: – Seu nome, madame? – escrevendo. – Seu endereço? – escrevendo. – Pagou em dinheiro? – escrevendo. – Vai levar a compra consigo? Ah, certo. – escrevendo. – Ah, entendo. Um novelo de linha, de algodão, preta, qual o tamanho? – escrevendo. – E a senhora ofereceu em pagamento? Sim, um franco. – escrevendo. – Por um franco, veja, madame, dou-lhe cinquenta centavos de troco. Bem. Está satisfeita, madame?

Ninguém avaliava quanto desemprego isso causava às multidões de clientes esperando pacientemente todos os dias, nem se aqueles funcionários poderiam estar fazendo alguma coisa útil, que criasse riqueza, se nunca tivessem sido empregados daquela maneira. Napoleão quis impedir o desperdício da desorganização, da fraude e das brigas nos mercados de seu tempo. E conseguiu. O resultado é que uma parte muito grande da França ficou permanentemente estacionada no tempo de Napoleão. Se ele tivesse deixado os franceses desperdiçarem e brigarem e fraudarem e serem lesados, como os americanos faziam em seus mercados igualmente primitivos, as lojas de departamentos da França certamente teriam se tornado tão vivamente eficientes e economizadoras de tempo como as da América.

Ninguém que sonha com uma ordem social ideal e com uma economia planejada para eliminar o desperdício e a injustiça leva em consideração quanta energia, quanto da vida humana é desperdiçado administrando-se e seguindo-se a melhor das regulamentações. Ninguém leva em conta o quanto essa regulamentação se tornaria rígida, nem que ela teria de se tornar rígida e resistir a mudanças, porque seu objetivo subjacente é proteger os homens dos riscos do acaso e das mudanças causadas pelo passar do tempo.

Os americanos, em nosso país, nunca experimentaram a disciplina de uma ordem social. Falamos de uma ordem social melhor quando, de fato, não sabemos o que é ordem social. Dizemos que há algo errado com nosso sistema quando, de fato, não temos sistema. Usamos frases aprendidas da Europa, sem conceber seu significado na experiência real vivida.

Na América, não temos nem mesmo treinamento militar universal, a base da ordem social que mostra a todo cidadão do sexo masculino que ele é submisso ao Estado e subtrai dele alguns anos de juventude, enfraquecendo, portanto, o poder militar de todas as nações que o adotaram.

Um contrato de aluguel de apartamento na América é valido a partir do momento em que é assinado; não é necessário levá-lo à polícia para ser carimbado, nem registrar uma cópia na coletoria de impostos, de maneira que, para fins fiscais, nossa renda seja considerada dez vezes maior que o aluguel que pagamos. Na teoria econômica, não há dúvida de que não é adequado pagar um aluguel maior que 10 por cento do que ganhamos e talvez seja economicamente justo que alguém tão extravagante a ponto de pagar mais seja punido pelos impostos. Nunca se consegue vencer com argumentos os motivos por trás das burocracias europeias; invariavelmente, os motivos são excelentes.

Um americano pode olhar o mundo a sua volta e pegar o que quiser, se conseguir. Só a lei penal e seu caráter, habilidade e sorte o limitam.

É o que os europeus querem dizer quando, depois de alguns dias neste país, exclamam: “Vocês são tão livres aqui!” Para um americano que volta depois de morar muito tempo no exterior, o mais infinito alívio é poder ir de um hotel a outro, de uma cidade a outra, poder entrar correndo numa loja e comprar um carretel de linha, resolver às três e meia tomar o trem das quatro, comprar um carro se tiver o dinheiro ou o crédito e dirigi-lo para onde bem entender, tudo sem ter que relatar absolutamente nada ao governo.

Mas qualquer pessoa para quem liberdade é a liberdade de ganhar seu sustento se possível, como sempre foi meu caso, sabe que essa independência é outro nome para responsabilidade.

Os pioneiros americanos expressaram isso de maneira clara e direta. Eles dizem: “Fuce, porco, ou morra”1.

Não pode haver uma terceira alternativa para o leitão que sai do chiqueiro, para ir onde quiser e fazer o que preferir. Liberdade individual é responsabilidade individual. Quem quer que tome decisões é responsável pelos resultados. Quando os homens comuns eram escravos e servos, obedeciam e eram alimentados, mas morriam aos milhares por pragas e fome. Homens livres pagam sua liberdade ao deixar aquela segurança falsa e ilusória.

A questão é se a liberdade pessoal vale o terrível esforço, o peso nunca aliviado e os riscos, os inevitáveis riscos, de depender de si mesmo.http://www.libertarianismo.org/index.php/biblioteca/234-rose-wilder-lane/1074-quero-liberdade



1 Em inglês, “Root, hog, or die”. Expressão idiomática comum nos Estados Unidos a partir do século XIX, que quer dizer que as pessoas devem depender de si mesmas.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um Discurso Inaugural, de Joseph Brodsky

Senhoras e senhores da Turma de 1984:
Por mais ousados ou cautelosos que vocês decidam ser, no decorrer de suas vidas estão destinados a entrar em contato físico direto com aquilo que é conhecido como o Mal. Não estou me referindo aqui a um elemento do romance gótico, mas, para dizer o mínimo, a uma realidade social palpável que vocês não têm como controlar. Por mais que sejam pessoas de boa índole ou lancem mão de cálculos precisos, não há como evitar este encontro. De fato, quanto mais calculistas e cuidadosos formos, maior será a probabilidade deste encontro, e mais forte seu impacto. A estrutura da vida é tal que aquilo que vemos como o Mal é capaz de uma presença bastante difundida, mesmo porque tem a tendência de aparecer sob o disfarce do bem. Vocês nunca irão vê-lo atravessando a soleira de suas portas e se anunciando: “Olá, eu sou o Mal!”. Isto, é claro, indica sua natureza secundária, mas o consolo que poderíamos extrair desta observação é obliterado pela frequência com que se manifesta.



Uma medida prudente a tomar, portanto, seria submeter suas noções de bem ao escrutínio mais meticuloso possível, percorrendo, por assim dizer, todo o seu guarda-roupa, verificando quais dos seus trajes poderiam caber num estranho. É claro que isso pode se transformar em uma ocupação em tempo integral, e talvez devesse mesmo. Vocês ficariam surpreendidos com a quantidade de coisas que consideram suas e boas, mas que poderiam ser facilmente usadas, sem muitos ajustes, por seus inimigos. Podem até começar a se perguntar se ele não seria as suas próprias imagens no espelho, pois o mais interessante a respeito do Mal é ele ser inteiramente humano. Para colocar o problema em termos amenos, posso dizer que nada pode ser virado e usado do avesso com mais facilidade do que nossas noções de justiça social, consciência cívica, um futuro melhor, etc. Um dos sinais mais seguros de perigo neste caso é o número daqueles que compartilham suas opiniões, não tanto porque a unanimidade tem o hábito de degenerar em uniformidade, mas devido à probabilidade – implícita nos grandes números – de que os sentimentos nobres sejam falsos.

Da mesma forma, a defesa mais segura contra o Mal é o extremo individualismo, a originalidade de pensamento, a singularidade, e até mesmo – se quiserem – a excentricidade. Ou seja, algo que não possa ser fingido, falsificado, imitado; algo que nem mesmo um impostor experiente seja capaz de copiar. Alguma coisa, em outras palavras, que não possa ser compartilhada, como, por exemplo, sua própria pele: nem mesmo por uma minoria. O Mal tem loucura pela solidez. Ele sempre procura os grandes números, o granito confiante, a pureza ideológica, os exércitos bem treinados e os orçamentos bem equilibrados. Presumivelmente, sua atração por essas coisas tem a ver com sua insegurança inata, mas, de novo, esta compreensão nos vale pouco como consolo quando o Mal triunfa.

E ele triunfa: em muitas partes do mundo, e dentro de nós mesmos. Dados seu volume e intensidade, dado em especial o cansaço daqueles que a ele se opõem, hoje o Mal pode ser encarado não como uma categoria ética, mas como um fenômeno físico que não se mede mais em partículas, mas na escala dos mapas geográficos. Assim, a razão pela qual estou falando com vocês a respeito disso não tem nada a ver com o fato de que são jovens, em pleno frescor, e estão diante de uma folha em branco. Não, a folha está escura de sujeira, e é difícil acreditar seja na capacidade ou na disposição que terão para limpá-la. Meu objetivo é apenas sugerir a vocês um modo de resistência que pode lhes ser útil algum dia; um modo que pode ajudá-los a emergir do confronto com o Mal talvez menos manchados, se não necessariamente mais triunfantes do que seus precursores. Estou pensando, é claro, no famoso expediente de oferecer a outra face.

Estou supondo que, de um modo ou de outro, vocês já ouviram falar nas interpretações desse versículo do Sermão da Montanha feitas por Leon Tolstoi, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e muitos outros. Em outras palavras, estou supondo que vocês conhecem o conceito de resistência não violenta, ou passiva, cujo princípio fundamental é retribuir o mal com o bem, ou seja, de não responder na mesma moeda. O fato de o mundo de hoje ser como é sugere, no mínimo, que este conceito está longe de ser universalmente aceito. Há duas razões para esta impopularidade. Primeiro, para que seja posto em ação é necessária certa margem de democracia. E é precisamente disto que carecem 86% do globo. Segundo, o senso comum diz às vítimas que a única coisa que podem ganhar ao oferecer a outra face e não responder na mesma moeda é, no máximo, uma vitória moral, isto é, algo de muito imaterial. A relutância natural em expor mais uma parte de seus corpos a um golpe é justificada pela suspeita de que este tipo de conduta só faz provocar e fortalecer o Mal; de que a vitória moral pode ser confundida com impunidade pelo adversário.

Mas há outras razões, mais graves, para ficarmos desconfiados. Se o primeiro golpe recebido não deixar a vítima nocauteada, ela pode perceber que oferecer a outra face equivale a manipular o sentimento de culpa do ofensor, para não falar de seu carma. A própria vitória moral pode não ser tão moral assim, não só porque o sofrimento muitas vezes tem um aspecto narcisista, mas também porque torna a vítima superior, isto é, melhor que seu inimigo. No entanto, por pior que seja seu inimigo, o fato crucial é que ele é humano, e embora sejamos incapazes de amar o próximo como a nós mesmos, ainda assim sabemos que o Mal cria raízes quando um homem começa a pensar que é melhor que outro. (E é por isso que vocês são atingidos primeiro na face direita.) Na melhor das hipóteses, portanto, o que se pode ganhar oferecendo a outra face para o inimigo é a satisfação de chamar a atenção deste último para a futilidade de seu gesto. “Veja bem”, diz a outra face, “o que você está golpeando é apenas a carne. Não sou eu. Você não pode esmagar minha alma.” O problema desse tipo de atitude é que o inimigo pode resolver aceitar o desafio.



Vinte anos atrás, a seguinte cena ocorreu num dos inúmeros pátios de prisão do norte da Rússia. Às sete horas da manhã, a porta de uma das celas foi escancarada e, na soleira, apareceu um guarda, que disse a seus prisioneiros: “Cidadãos! O coletivo dos guardas desta prisão desafia vocês, os prisioneiros, para uma competição socialista para ver quem racha mais toras da lenha acumulada um nosso pátio”. Nessas regiões, não existe aquecimento central, e a polícia local, digamos assim, impõe a todas as madeireiras da região uma taxa equivalente a 10% de sua produção. No momento que estou descrevendo, o pátio da prisão parecia uma verdadeira serraria: as pilhas tinham de dois a três andares de altura, reduzindo a proporções diminutas o quadrilátero da própria prisão, que tinha apenas um andar. A necessidade de começar a rachar aquela lenha era evidente, embora competições socialistas desse tipo já tivessem ocorrido antes. “E se eu me recusar a tomar parte?”, perguntou um dos prisioneiros. “Bem, neste caso fica sem as refeições”, respondeu o guarda.

Machados foram entregues aos prisioneiros, e começou a atividade. Tanto prisioneiros quanto guardas se aplicavam seriamente ao trabalho, e ao meio-dia todos eles, sobretudo os prisioneiros, sempre subnutridos, estavam exaustos. Anunciou-se uma pausa e todos se sentaram para comer: menos o sujeito que tinha feito a pergunta. Ele continuou a brandir seu machado. Tanto os prisioneiros como os guardas trocaram piadas a respeito dele, algo sobre os judeus sempre terem sido considerados espertos, mas aquele… e assim por diante. Depois da pausa, reiniciaram o trabalho, embora com um pouco menos de energia, Às quatro horas, os guardas foram embora, porque seu turno acabava ali; um pouco depois, os prisioneiros também pararam de trabalhar. Mas o machado daquele homem continuava subindo e descendo. Várias vezes lhe disseram que parasse, mas ele não atendia. Parecia que tinha adquirido certo ritmo que não queria interromper; ou seria o ritmo que tinha se apossado dele?

Aos outros, ele dava a impressão de um autômato. Às cinco horas, às seis, o machado continuava subindo e descendo. Tanto os guardas quanto os prisioneiros o observavam agora atentamente, e a expressão sardônica em seus rostos foi aos poucos sendo substituída primeiro pelo espanto, e depois pelo horror. Às sete e meia o homem parou, voltou cambaleando para sua cela e caiu adormecido. Durante o resto de sua estada naquela prisão, nunca mais se formulou um desafio de competição socialista entre guardas e prisioneiros, embora a lenha continuasse a se acumular em pilhas no pátio.


Acho que aquele sujeito só foi capaz de passar doze horas seguidas rachando lenha porque naquela época era bastante jovem. Tinha apenas 24 anos. Era só um pouco mais velho do que vocês são agora. No entanto, acho que pode ter havido outra razão para seu comportamento daquele dia. É bem possível que aquele jovem – justamente por ser jovem – tenha se lembrado do texto do Sermão da Montanha melhor do que Gandhi ou Tolstoi. O Filho do Homem tinha o hábito de falar em tríades, e o jovem pode ter-se lembrado de que aquele importante versículo não acaba em:

            mas se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra

mas continua, sem ponto e nem vírgula:

            e ao que quer demandar-te em juízo, e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa. E se qualquer te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele ainda mais outros dois mil.

Citados na íntegra, estes versículos têm na verdade muito pouco a ver com a resistência não violenta ou passiva, com os princípios de não responder na mesma moeda e de retribuir ao mal com o bem. O significado dessas linhas é tudo menos passivo, porque sugere que o mal pode acabar ficando absurdo pelo excesso; sugere que devemos tornar o mal absurdo, fazendo com que suas exigências se tornem minúsculas diante do volume de nossa obediência a elas, depreciando o sofrimento que nos causam. Este tipo de atitude deixa a vítima numa posição muito ativa, a posição de agressor mental. E a vitória que se pode conquistar neste caso não é moral, mas existencial. A outra face não se limita a manipular o sentimento de culpa do inimigo (sentimento que ele é perfeitamente capaz de aplacar), mas submete seus sentidos e suas faculdades à falta de sentido de todo o empreendimento: do mesmo modo como toda forma de produção em massa.

Quero lembrar que não estamos tratando aqui de uma situação que envolva uma luta justa, em condições de igualdade. Estamos falando de situações nas quais nos encontramos desde o início em uma posição inevitavelmente inferior, em que não temos a possibilidade de reagir lutando, em que as chances nos são esmagadoramente desfavoráveis. Em outras palavras, estamos falando das horas escuras de nossas vidas, nas quais nosso sentimento de superioridade moral em relação ao inimigo não nos dá alívio, nas quais este inimigo já foi longe demais para ainda se envergonhar ou sentir saudades dos escrúpulos que abandonou, nas quais só temos à nossa disposição nossa face, nossa túnica, nossa capa e um par de pés que ainda é capaz de caminhar mil ou dois mil passos.

Numa situação desse tipo, há pouco espaço para manobras táticas. Assim, virar a outra face deve ser uma decisão consciente, fria, deliberada. Suas possibilidades de vitória, por mais escassas que sejam, dependem totalmente da consciência que vocês tenham ou não do que estão fazendo. Ao avançarem o rosto com a face voltada para o inimigo, vocês devem saber que isto é apenas o início de sua provação, bem como do versículo – e devem ser capazes de se ver durante toda a sequência, através de todos os três versículos do Sermão da Montanha. De outro modo, uma frase entendida fora do contexto pode deixá-los inutilizados.


Basear nossa ética num versículo citado incorretamente equivale a cortejar o fracasso, ou então a nos transformar em burgueses mentais que decidiram entregar-se ao supremo conforto: o conforto de suas convicções. Nos dois casos (dos quais o último, culminando na filiação a movimentos marcados pelas boas intenções e a organizações sem fins lucrativos, é o menos palatável), isto resulta em ceder terreno ao Mal, em retardar a compreensão de suas fraquezas. Porque o Mal, volto a lembrar, é apenas humano.

A ética baseada neste versículo mal citado não mudou nada na Índia pós-Gandhi, exceto a cor de seus governantes. Do ponto de vista do homem faminto, porém, pouco importa quem provoque a sua fome. Admito que ele possa até preferir que seja um homem branco o responsável por seu triste estado, mesmo por que deste modo pode parecer que o mal social vem de outro lugar, e é menos eficiente, talvez, do que um sofrimento que lhe fosse infligido por seus semelhantes. Com um estrangeiro no poder, ainda sobra lugar para a esperança, para a fantasia.

Da mesma forma, na Rússia pós-Tolstoi, a ética baseada neste versículo mal citado minou boa parte da vontade da nação em seu confronto com um Estado policial. O que aconteceu já é muito bem conhecido: seis décadas virando a outra face transformaram a nação num imenso hematoma, e hoje o Estado, cansado de sua violência, limita-se a cuspir nesta face. Bem como na face de todo o mundo. Em outras palavras, se vocês quiserem secularizar o cristianismo, se quiserem traduzir os ensinamentos de Cristo em termos políticos, precisam de algo mais do que o palavrório moderno da política: precisam do texto original – pelo menos em suas mentes, se não houver lugar para ele em seus corações. Já que Ele era menos um homem bom do que um espírito divino, é fatal insistir em Sua bondade em detrimento de Sua metafísica.

Devo admitir que às vezes me sinto um tanto mal quando falo sobre essas coisas: porque virar ou não virar a outra face é, afinal, uma questão de foro íntimo. O confronto sempre ocorre em termos individuais, de um contra um. É sempre a sua pele, a sua túnica e a sua capa, e suas pernas, que terão que sofrer as consequências. Aconselhar, quanto mais insistir, sobre a maneira como cada um deve usar essas propriedades é, se não inteiramente errado, pelo menos indecente. Tudo o que pretendo fazer aqui, assim, é apagar de suas mentes um clichê que tanto mal fez a tantos e rendeu tão pouco. Também gostaria de instilar em vocês a ideia de que, enquanto continuarem tendo suas peles, suas túnicas, suas capas e seus pés, ainda não foram derrotados, por menores que sejam suas possibilidades.

Existe, porém, uma razão maior para sentirmos certo constrangimento em discutir essas questões em público, e não é apenas a relutância natural que vocês possam sentir em considerar a si mesmos, tão jovens, como vítimas em potencial. Não, na verdade é apenas a sobriedade, que nos faz antecipar que também entre vocês surgirão alguns vilões – e é má estratégia divulgar os segredos da resistência diante do inimigo em potencial. O que talvez nos livre da acusação de traição ou, pior ainda, de projetar o status quo tático para o futuro, é a esperança de que a vítima sempre será mais inventiva, mais original em seu pensamento, mais empreendedora que o vilão. Daí a possibilidade de que a vítima venha a triunfar.

(Williams College, 1984)

Tradução: Sergio FlaksmanO original pode ser encontrado aqui: http://www.nybooks.com/articles/archives/1984/aug/16/a-commencement-address/

Quero Liberdade (cap. V), de Rose Wilder Lane

V

Quando voltei da União Soviética, não era mais comunista, porque acreditava na liberdade pessoal. Como todos os americanos, tinha como certa a liberdade individual na qual nasci. Parecia-me tão necessária e inevitável como o ar que respiro; parecia ser o elemento natural em que os seres humanos vivem.

A ideia de que pudesse perdê-la nunca havia nem remotamente me ocorrido. E não podia imaginar que multidões de seres humanos pudessem voluntariamente viver sem ela.

Aconteceu que passei muitos anos em países da Europa e da Ásia ocidental, de maneira que finalmente aprendi um pouco, não só sobre as palavras que os vários povos usam, mas sobre o real significado dessas palavras. Nenhuma palavra, é claro, pode ser traduzida de maneira exata para outra língua; as palavras que usamos são os símbolos mais toscos para seus significados e supor que palavras como “guerra”, “glória”, “justiça”, “liberdade”, “lar” signifiquem a mesma coisa em duas línguas é um erro.

Em toda parte, na Europa, encontrei os fatos vivos das castas medievais e da estática ordem social medieval. Vi-os resistindo, e resistindo encarniçadamente, à liberdade individual e à revolução industrial.

É impossível conhecer a França sem saber que os franceses têm necessidade de ordem, disciplina, da limitação das formas tradicionais, da regulação burocrática das vidas humanas por um poder policial centralizado e que a impetuosa democracia francesa não é um grito pela liberdade individual, mas uma insistência de que as classes mais altas não explorem tão severamente as classes mais baixas.

Vi, na Alemanha e na Áustria, ovelhas espalhadas e sem liderança, correndo de um lado para outro, sentindo falta da segurança perdida do rebanho e do pastor.

Resistindo passo a passo, fui finalmente obrigada a admitir a meus amigos italianos que havia visto o espírito da Itália reviver sob Mussolini. E parecia-me que esse reflorescimento baseava-se na separação entre a liberdade individual e a revolução industrial, cuja causa e origem era a liberdade individual. Disse que na Itália, assim como na Rússia, uma ordem econômica controlada, planejada e essencialmente medieval estava colhendo os frutos da revolução industrial enquanto destruía sua raiz, a liberdade do indivíduo.

– Por que você quer falar sobre os direitos dos indivíduos! – explicavam os italianos, impacientes afinal. – Um indivíduo não é nada. Como indivíduos, não temos importância nenhuma. Vou morrer, você vai morrer, milhões vão viver e morrer, mas a Itália nunca morre. A Itália é importante. Nada importa, exceto a Itália.

Essa rejeição do eu como um indivíduo era, eu sabia, o espírito que animava os membros do Partido Comunista. Eu ouvia que era o espírito que começava a animar a Rússia. Era o espírito do fascismo, o espírito que indubitavelmente reviveu a Itália. Dezenas, centenas de pequenos incidentes revelavam isso.

Em 1920, a Itália era um pulgueiro de mendigos e ladrões. Eles caíam sobre o estrangeiro e o devoravam. Não havia momento em que a bagagem pudesse ser deixada desguardada; toda conta era cobrada a mais; e nenhum serviço, por menor que fosse, deixava de vir acompanhado da conta; os táxis desviavam para ruas sem movimento e os barcos paravam no meio do caminho para os navios, para que os motoristas e barqueiros pudessem, pelo medo, forçar os tímidos passageiros a pagar duas vezes. Cada passo na Itália era uma discussão e uma briga.

Em 1927, meu carro quebrou depois do anoitecer, na beira de uma pequena aldeia italiana. Três homens – um garçom, um foguista e um chofer uniformizado de viajantes ricos que dormiam na estalagem – trabalharam a noite toda no motor. Quando começou a funcionar suavemente no gelado amanhecer, os três se recusaram a aceitar qualquer pagamento. Americanos numa situação semelhante teriam recusado por cordialidade humana e orgulho pessoal. Os italianos diziam firmemente:  – No, signora. Fizemos pela Itália. – Isso era típico. Os italianos não estavam mais centrados em si mesmos, mas naquela criação mítica de sua imaginação em que despejavam suas vidas: a Itália, a Itália imortal.

Comecei finalmente a questionar o valor dessa liberdade pessoal que me parecera tão inerentemente correto. Via como era raro, como era novo o reconhecimento dos direitos humanos. Da Bretanha até Basra, refleti sobre as ruínas das civilizações brilhantes onde povos jamais vislumbraram a ideia de que os homens nascem livres. Em sessenta séculos de história humana, essa ideia foi um elemento da fé religiosa judaica, cristã e muçulmana, mas nunca tinha sido usada como um princípio político.

Era um princípio político apenas para uns poucos homens na terra, havia menos de dois séculos. A Ásia não a conhecia. A África não a conhecia. A Europa nunca a aceitou completamente e agora a estava repelindo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Quero Liberdade (cap. IV), de Rose Wilder Lane


IV

Na Rússia, então, nossa esperança tinha se realizado; a revolução econômica tinha acontecido. O Partido Comunista capturara o poder com o grito: “Todo poder aos conselhos!”

O capitalismo de estado da Rússia e as tímidas tentativas de livre empresa foram destruídos e o povo controlava a riqueza nacional. Ou melhor: na realidade, um homem sincero e extremamente capaz – Lênin – estava no poder, devotado à estupenda tarefa de reduzir multidões de seres humanos à ordem econômica eficiente, o que esse homem e seus seguidores honestamente acreditavam que fosse o máximo bem-estar material daquelas multidões.

E o que eu via não era uma extensão da liberdade humana, mas o estabelecimento da tirania numa base nova, amplamente estendida e mais profunda.

A novidade histórica do governo soviético era sua razão de ser. Outros governos existiam para manter a paz entre seus súditos ou para arrecadar dinheiro deles ou para usá-los no comércio e na guerra para a glória dos homens que os governavam. Mas o governo soviético existia para fazer o bem a seu povo, quer ele gostasse disso ou não.

E eu sentia que, de todas as tiranias às quais os homens foram submetidos, aquela tirania seria a mais implacável e a mais dolorosa de suportar. Existe algum refúgio para a liberdade sob outras tiranias, uma vez que são menos completas e não são tão armadas de virtude sem remorsos. Mas eu não conseguia identificar nenhum tipo de refúgio contra a benevolência no poder econômico.

Todos os relatos sobre a União Soviética que ouvi desde então confirmaram essa opinião. E ouço apenas relatos dos seus amigos, já que acredito que os comunistas são quem melhor entende o que ocorre lá.

Há vinte e sete anos, os homens que dirigem o país labutam prodigiosamente para criar precisamente a sociedade com a qual sonhamos: uma sociedade em que a insegurança, a pobreza e a desigualdade econômica são impossíveis.

Por esse fim, suprimiram a liberdade pessoal; liberdade de movimento, de escolha do trabalho, liberdade de manifestação pessoal no modo de vida, liberdade de expressão, liberdade de consciência.

Dado seu objetivo, não vejo como poderiam ter feito diferente. A extração de comida da terra e do mar, a produção de bens a partir de matérias-primas reunidas, e seu armazenamento, troca, transporte, distribuição e consumo por vastas multidões de seres humanos são atividades tão intricadamente inter-relacionadas e interdependentes que o controle eficiente de qualquer parte delas exige o controle do todo. Nenhum homem pode controlar multidões de homens assim sem coerção e essa coerção precisa aumentar com o tempo.

Precisa aumentar, porque os seres humanos são naturalmente diversos. É da natureza humana fazer a mesma coisa de maneiras diferentes, perder tempo e energia mudando a forma das coisas, experimentar, inventar, cometer erros, abandonar o passado numa variedade infinita de direções. Plantas e animais repetem a rotina, mas homens que não são reprimidos irão ao futuro como exploradores de um novo país e a exploração é sempre perdulária. Grandes quantidades de exploradores não conseguem nada e muitos se perdem. A coerção econômica é, portanto, constantemente ameaçada pela obstinação humana. Ela precisa constantemente superar essa obstinação, esmagar todos os impulsos de egotismo e independência, destruir a variedade de desejos e comportamentos humanos. O poder econômico centralizado, esforçando-se por planejar e controlar os processos econômicos de uma nação moderna, existe sob a necessidade ou de fracassar ou de se tornar o poder absoluto sobre cada área da vida humana.

Não importa o que acontece aos indivíduos – diz o comunista. – O indivíduo não é nada. A única coisa que importa é o Estado coletivista.

A esperança comunista de igualdade econômica na União Soviética repousa hoje na morte de todos os homens e mulheres que são indivíduos. Uma nova geração, eles me dizem, já está sendo forjada e educada assim, de maneira que está sendo criada de fato uma massa humana; milhões de homens e mulheres jovens que possuem, de verdade, a psicologia de uma colmeia de abelhas, de um formigueiro.

Isso não me parece tão inacreditável quanto já pareceu. Pode já existir uma colmeia humana na Rússia. Não seria a única na história; existiu Esparta.

Existiu Esparta, imutável em suas rígidas formas de comportamento e pensamento padronizados, até que foi destruída por um inimigo externo. Existe a colmeia de abelhas, estática, imutável através de incontáveis gerações de indivíduos que repetem incessantemente o mesmo padrão de ações devotadas ao bem de todos. Se não há progresso na vida, isso não é vida; é um tipo de morte animada e respirando.http://www.libertarianismo.org/index.php/biblioteca/234-rose-wilder-lane/1074-quero-liberdade

sábado, 8 de dezembro de 2012

Terminei de ler "À Sombra das Moças em Flor"

Desde o ano passado, estou lendo pela segunda vez "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Terminei agora o segundo volume, "À Sombra das Moças em Flor". Não é uma leitura fácil, não dá para ler em qualquer lugar, com barulho ou de maneira apressada. Porém, é muito recompensadora. Os personagens são muito bem construídos, as situações são interessantes, engraçadas, e o livro apresenta uma rica visão filosófica da vida e da condição humana. Entre os temas trabalhados por Proust estão o impacto das revoluções tecnológicas na vida das pessoas (a fotografia, o telefone, o automóvel, o avião) e o sentido da arte. Recomendo muitíssimo.

Aqui vai mais um trecho, do final do segundo volume:

"E, em suma, é uma forma como outra qualquer de resolver o problema da existência, o de aproximar bastante as coisas e as pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para nos darmos conta de que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes entre as quais se pode optar, uma higiene que talvez não seja muito recomendável, mas que nos proporciona uma certa calma para passar a vida e também para nos resignarmos à morte, uma vez que nos permite não lamentar coisa alguma, convencendo-nos que alcançamos o melhor e que o melhor não é grande coisa."

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Quero Liberdade (cap. III), de Rose Wilder Lane

III

A imagem da revolução econômica como o passo final para a liberdade se mostrou falsa tão logo eu me fiz essa pergunta. Porque, na realidade, o Estado e o Governo não podem existir. São conceitos abstratos, suficientemente úteis em seus lugares, como a teoria dos números negativos é útil na matemática. Na experiência real vivida, entretanto, é impossível subtrair alguma coisa de nada; quando uma bolsa está vazia, está vazia. Não pode conter menos dez dólares. Nesse mesmo plano de realidade, não existe Estado, não existe Governo. O que existe de fato é um homem, ou alguns homens, no poder sobre muitos outros homens.

A Reforma reduziu o poder do Estado – os padres – de maneira que o homem comum passou a ser livre para pensar e falar como quisesse. A revolução política reduziu ou destruiu o poder do Estado – os reis – de maneira que o homem comum ficou mais próximo de ser livre para fazer o que quisesse. Mas esta revolução econômica concentrava o poder econômico nas mãos do Estado – os comissários – de maneira que a vida e os meios de subsistência do homem comum estavam outra vez dominados por ditadores.

Todos os avanços na direção da liberdade pessoal que haviam sido ganhos pela revolução religiosa e pela revolução política foram perdidos pela reação econômica coletivista.

Quando analisei esses fatos, vi que não podia ser de outra maneira. A aldeia comunista era possível porque lá uns poucos homens, cara a cara, lutavam cada um por seu interesse próprio, até que daquele conflito se chegasse a um equilíbrio razoavelmente satisfatório. A mesma coisa acontece dentro de toda família. Mas o governo de centenas de milhões de homens é outra coisa. O tempo e o espaço impedem uma luta pessoal de tantas vontades, cada pessoa em um encontro pessoal com cada outra, chegando a uma decisão comum. O governo de multidões de homens fica necessariamente nas mãos de poucos.

Os americanos criticavam Lênin porque ele não estabeleceu uma república. Se ele tivesse feito isso, o fato de que poucos homens governavam a Rússia não teria mudado.

O governo representativo não pode expressar a vontade da massa de pessoas porque não existe massa de pessoas. O Povo é uma ficção, assim como o Estado. Não se consegue obter a Vontade da Massa, mesmo entre uma dúzia de pessoas que querem fazer um piquenique. A única massa humana com uma vontade comum é uma turba e essa vontade é uma insanidade temporária. Na realidade, a população de um país é uma multidão de seres humanos diferentes com uma infinita variedade de objetivos e desejos e vontades flutuantes.

Numa república, essa população decide de tempos em tempos, por maioria, qual dos candidatos a um cargo público poderá usar o poder de polícia do Estado. De tempos em tempos, uma ação da maioria pode mudar os métodos pelos quais os homens chegam ao poder, a extensão desse poder ou em que termos eles podem mantê-lo. Mas a maioria não governa; não pode governar; no máximo, age como um freio sobre os governantes. Qualquer governo de multidões de homens, em qualquer lugar, em qualquer tempo, necessariamente é um homem ou uns poucos homens no poder. Não há como escapar desse fato.

Uma república não é possível na União Soviética porque o objetivo de seus governantes é econômico. O poder econômico é diferente do poder político.

A política é uma questão de princípios gerais que, uma vez adotados, podem permanecer inalterados indefinidamente; princípios como, por exemplo, de que o governo deriva seus justos poderes do consentimento dos governados. Desses princípios são extraídas regras gerais, como “No taxation without representation1. Essas regras são encarnadas na legislação que restringe ou limita o poder político, como: “O direito exclusivo de cobrar impostos pertence ao Congresso e apenas o Congresso pode gastar o dinheiro recolhido de impostos”. Esta aplicação mais concreta do princípio político não afeta os detalhes íntimos da vida do indivíduo. Podemos descuidadamente permitir que o Congresso faça o que bem entender, podemos deixar de reagir quando ele quiser tomar uma medida que nos afeta, podemos resmungar quando temos de tomar um empréstimo para pagar os impostos ou podemos perder nossa casa ou fazenda se não conseguirmos e, mesmo assim, a liberdade pessoal de escolha ainda é nossa.

A economia, entretanto, não se preocupa com princípios abstratos e leis gerais, mas com coisas materiais; trata diretamente com vagões reais carregados de carvão, colheitas reais de grãos, produção real de fábricas. O poder econômico em ação está sujeito a uma infinidade de crises imprevisíveis que afetam as coisas materiais; está sujeito às secas, a tempestades, a enchentes, a terremotos e pestes, à moda, a doenças, a insetos, a falhas mecânicas e ao desgaste do maquinário. E a economia participa dos pequenos detalhes da existência de uma pessoa – sua alimentação, bebida, trabalho, diversão e hábitos pessoais.

Governantes econômicos devem decidir sobre questões como: quantos metros de tecido devem ser usados num vestido de mulher? Batons devem ser permitidos? Existe valor econômico no chiclete? Há um ponto de vista perfeitamente válido segundo o qual toda a indústria de fumo é um desperdício econômico.

Todo o sistema de circulação da economia é afetado pelo número de pessoas que lavam atrás das orelhas. Esse assunto tão pessoal afeta a importação e produção de óleos vegetais; o uso de gordura de animais de fazenda; a manufatura de produtos químicos: perfumes, corantes; a construção ou o fechamento de fábricas de sabão, com consequentes mudanças no emprego nessas fábricas e no negócio da construção civil e indústrias pesadas e na demanda por matérias-primas e por trabalho na sua produção; e nos fretes e no uso de combustíveis, com seus efeitos sobre minas, campos de petróleo e transportes. Já falamos do sabão. Considere agora as toalhas de rosto que podem ou não ser usadas para lavar atrás das orelhas, com todos os efeitos dessa decisão sobre plantações de algodão ou linho e o trabalho, no campo e nas fábricas; descaroçadores de algodão e seus subprodutos das sementes de algodão: óleo, fertilizante ou alimento para o gado; e máquinas de fiação e tecelagem e suas demandas sobre a indústria do aço.

Todos esses fatores econômicos, e muitos outros, mudam se os hábitos pessoais de higiene mudam. Uma dieta de Hollywood ou uma paixão por quebra-cabeças têm resultados prodigiosos nos lugares mais remotos e inesperados. O fato de a criança, faminta ao voltar da escola, comer pão com manteiga ou doces é um assunto de importância econômica internacional.

O controle centralizado da economia sobre multidões de seres humanos precisa, portanto, ser contínuo e flexível de uma maneira sobre-humana, além de ser autocrático. Um governo assim precisa de um fluxo rápido de decretos emitidos apressadamente para responder em tempo a eventos que somem no passado, antes que possam ser relatados, organizados, analisados e considerados e será obrigado a usar a coerção. No esforço de ser bem-sucedido, o controle terá de se tornar rigoroso e minucioso sobre pequenos detalhes da vida individual, de uma maneira que ninguém aceitaria sem coerção. Não pode ser submetido a verificações, revogações e remoções de pessoas no poder que as maiorias podem provocar nas repúblicas.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quero Liberdade (cap. II), de Rose Wilder Lane

II

Eu estava na Rússia transcaucasiana na ocasião, bebendo chá com cerejas em conserva e tentando segurar ao mesmo tempo uma pelota de açúcar entre os dentes. É difícil. Minha roliça anfitriã russa e seu marido tranquilo, de barba dourada, sorriam para mim e algumas crianças de bochechas redondas fitavam maravilhadas a americana. A casa deles tinha um século de idade e era charmosa. Havia imagens penduradas nas paredes grossas, mais brancas que a neve. Colchões de penas circundavam o nicho de camas do grande fogão de tijolos, que também era caiado. Todos os tecidos eram bordados. O colarinho do meu anfitrião e o vestido de sua mulher eram obras de arte. Havia uma máquina de costura americana e um orgulhoso samovar.

A aldeia era comunista, é claro. Sempre tinha sido comunista. A única fonte de riqueza era a terra e nunca tinha ocorrido a esses camponeses que a terra podia ser propriedade de alguém.

Essas planícies da Geórgia russa são muito parecidas com as de Illinois. Os russos chegaram lá como pioneiros, por volta da mesma época em que os americanos estavam entrando em Illinois. Vieram do mesmo jeito, a pé, chuchando os bois que puxavam as lentas carroças pelas pradarias sem estradas. Diligentes, frugais, afáveis e eminentemente sensatos, os russos avançaram em grupos, se estabeleceram em aldeias, cultivaram a boa terra em comum e prosperaram.

Em Illinois, todo colono pagou pela sua terra. Não havia terra de graça para os americanos até 1862. Na Rússia, a terra era de graça. Cada aldeia cultivava tanto quanto precisasse. Dentro da aldeia, cada família cultivava uma área pré-determinada. Quando, no curso dos eventos naturais, o tamanho das famílias se alterava de maneira que a divisão de terras não mais fosse satisfatória, todos os camponeses se reuniam e discutiam uma nova divisão. Isso acontecia a cada mais ou menos dez anos, dependendo dos nascimentos, casamentos e mortes.

Essas pessoas nunca foram oprimidas por donos de terras; a maioria deles não tinha conhecido donos de terras e nenhum tinha tido qualquer contato real com o governo do czar. Estavam acostumados a pagar a um coletor de impostos, uma vez por ano, no outono, um décimo da produção anual dos campos de grãos. O coletor vinha a cavalo pela planície, recolhia os impostos em carros de boi e ia embora. Os rapazes ocasionalmente iam para a guerra, normalmente alguma pequena guerra particular contra uma aldeia tártara. A maioria desses russos era de cristãos primitivos, contrários à guerra; eles haviam vindo ou sido obrigados a sair da antiga Rússia por que não mandariam seus filhos para os exércitos do czar. Mas depois de um século, sua oposição havia se enfraquecido; os jovens às vezes tinham disposição suficiente para se alistar para a guerra. Assim, ocasionalmente, um militar cavalgava até a aldeia, alguns jovens iam embora com ele e, quando alguns retornavam meses ou anos depois, traziam notícias de onde haviam estado e o que haviam feito e visto.

Tinha diante de mim o espetáculo de um país virgem, terra de graça, solo rico, para onde os pioneiros tinham levado o comunismo. Eles viviam lá havia cem anos, sem serem perturbados. Encontrei entre esses camponeses muitos velhos que me perguntavam o que tinha acontecido em meu país quando morreu o czar do mundo. Encontrei jovens que tinham estado em campos alemães de prisioneiros, e que explicavam aos vizinhos de olhos arregalados que eu vinha da América, uma terra fabulosa onde você podia escrever uma carta e pedir qualquer coisa – comida, cigarros, meias, fósforos, açúcar, até um casaco – e chegaria.

E eles não eram estúpidos, de maneira nenhuma. Eram os melhores fazendeiros e criadores de gado, eram bons mecânicos; as mulheres eram ótimas donas de casa e cozinheiras. Tinham mente aberta e gostavam de fazer experiências. Uma aldeia tinha contratado um suíço, por um bom salário, e construído um chalé suíço para ele e sua família; sua tarefa era melhorar a raça de vacas leiteiras e produzir queijo na fábrica da aldeia. Havia uma aldeia de duas milhas de comprimento e uma rua de largura, iluminada por eletricidade da usina elétrica da aldeia; as mulheres de lá não lavavam a roupa no rio, mas numa lavanderia comunitária.

A colheita tinha sido boa naquele ano; o gado estava gordo, os celeiros transbordavam, e em todos os sótãos havia pilhas de abóboras vermelho-douradas. É claro que não havia mendigos no vilarejo. Todos trabalhavam e – se o clima permitisse – qualquer um que trabalhasse era alimentado com abundância. Nenhum comunista poderia ter desejado uma prova melhor do valor prático do comunismo que o próspero bem-estar daqueles aldeões.

Os bolcheviques estavam no poder havia cerca de quatro anos e os impostos na aldeia não haviam subido, nem os jovens haviam sido convocados ao exército em maior quantidade que durante o regime do czar. Essas aldeias dependiam muito pouco de Tiflis, a cidade mais próxima, mas até Tiflis estava então revivendo por causa da NEP, a Nova Política Econômica de Lênin, uma pausa temporária para o capitalismo respirar.

Meu anfitrião me deixou perplexa com a força com que disse que não gostava do novo governo. Eu mal podia acreditar que alguém que foi comunista a vida toda, com abundantes provas do sucesso do comunismo em volta de nós, se opunha a um governo comunista. Ele repetia que não gostava dele: – Não! Não!

Sua queixa era a interferência governamental nos assuntos da aldeia. Ele protestava contra a burocracia crescente que estava tirando mais e mais homens do trabalho produtivo. Ele previa caos e sofrimento resultantes da centralização do poder econômico em Moscou. Não eram suas palavras, mas era o que ele queria dizer.

Isto, eu disse a mim mesma, é a oposição de uma mente camponesa a novas ideias, grandes demais para o seu entendimento. É minha pequena oportunidade de espalhar um pouco de luz. Eu compreendia um pouco de russo, mas não podia falar bem e, com a ajuda do meu intérprete, expliquei em palavras simples o paralelo entre as terras da aldeia, como fontes de riqueza, e todas as fontes de riqueza. Desenhei para ele uma figura da Grande Rússia, até seus cantos mais remotos, desfrutando a igualdade, a paz e a prosperidade dividida com justiça que existiam na sua aldeia. Ele balançou a cabeça com tristeza.

– É grande demais – ele disse. – Grande demais. E o topo é pequeno demais. Não vai funcionar. Em Moscou há apenas homens e o homem não é Deus. Um homem só tem uma cabeça de homem e cem cabeças juntas não fazem uma grande cabeça. Não. Só Deus pode ter a Rússia inteira em sua mente.

Um ocidental entre russos frequentemente acha que eles são todos meio loucos. Em outros momentos, seu misticismo se parece com puro bom senso. É bem verdade que muitas cabeças não fazem uma grande cabeça; na verdade, fazem uma sessão do Congresso. O que então, perguntei atordoada a mim mesma, é o Estado? O Estado Comunista – ele existe? Ele pode existir?

Hoje, gostaria de saber se aquela casa ancestral e aquela aldeia já foram varridas do solo da Rússia para dar lugar à fazenda comunal, cultivada em três turnos diários de oito horas, arada por tratores e com a colheita feita por colheitadeiras, iluminada à noite por enormes refletores. Será que meu anfitrião e sua esposa comem num salão de jantar comunal e dormem em barracas comunais agora?

Certamente, o padrão de vida deles era primitivo. Em cem anos, não havia mudado. Eles não tinham luz elétrica nem encanamento. Tomavam banho, suponho, uma vez por semana na casa de banho da aldeia e talvez isso não fosse higiênico. Quantos germes havia na água que eles bebiam ninguém sabia. Não havia tela em suas janelas. Suas estradas poeirentas viravam sem dúvida um lamaçal sem fundo no tempo chuvoso. Não tinham automóveis nem cavalos; apenas carros de boi. Seu padrão de vida, numa palavra, era o mesmo daqueles pioneiros de Illinois de cem anos atrás. Possivelmente, seu padrão de vida já subiu. Deve vir um tempo em que todo dente na Rússia seja escovado três vezes ao dia e toda criança alimentada com espinafre.

Mas, se isso for feito com o povo da antiga Rússia, não será feito por eles, mas para eles. E quem o fará? O Estado?

http://www.libertarianismo.org/index.php/biblioteca/234-rose-wilder-lane/1074-quero-liberdade

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ação de Graças, segundo Ayn Rand

O Dia de Ação de Graças é um feriado tipicamente americano. Apesar de sua forma religiosa (dar graças a Deus por uma boa colheita), seu significado essencial, secular, é a celebração da produção bem-sucedida. É um feriado dos produtores. A refeição farta simboliza o fato de que o consumo abundante é o resultado e a recompensa da produção. A abundância é (ou foi, e deveria ser) o orgulho da América — assim como é o orgulho dos pais americanos que seus filhos nunca precisem conhecer a fome.

http://aynrandlexicon.com/lexicon/thanksgiving.html

terça-feira, 20 de novembro de 2012

The Case for Israel, de Alan Dershowitz

Gostaria de recomendar um livro que li no ano passado: The Case for Israel, de Alan Dershowitz, publicado em 2003. Existe uma tradução brasileira, com o título de "Em Defesa de Israel", publicada pela Editora Nobel em 2004, e esgotada. Pode ser encontrada em sebos.

Publico a introdução da edição brasileira.

Introdução

A nação judaica de Israel é acusada pela justiça internacional. As incriminações incluem a de ser um Estado criminoso e violador dos direitos humanos, uma imagem especular do nazismo e de ser a barreira mais intransigente para a paz no Oriente Médio. Pelo mundo todo, das comissões da ONU  aos campi das universidades, Israel é discriminado com condenações, despojamentos, boicotes e demonizações. Seus líderes são ameaçados de processos como criminosos de guerra. Seus amigos são acusados de dupla lealdade e provincianismo.

Chegou a hora de uma defesa proativa de Israel ser apresentada na corte da opinião pública. Neste livro apresento tal defesa – não de qualquer política ou ação israelense, mas do direito básico de Israel à existência. De proteger seus cidadãos do terrorismo e de defender suas fronteiras de inimigos hostis. Mostro que Israel há muito tempo deseja aceitar a existência de dois Estados, propostos no “mapa da estrada” para a paz, e que foi a liderança árabe que persistentemente se recusou a aceitar qualquer Estado judeu – não importa quão pequeno – nas regiões palestinas com maioria judaica. Também procuro apresentar um quadro realista de Israel, com seus defeitos, como uma democracia multiétnica florescente, em muitos aspectos parecida com os Estados Unidos, que oferece a todos os seus cidadãos – judeus, muçulmanos e cristãos – oportunidades e condições de vida muito melhores do que as oferecidas por qualquer nação árabe ou muçulmana. Acima de tudo, afirmo que todos que escolhem Israel como único alvo de uma crítica, que não é dirigida contra países com registros muito piores de violações de direitos humanos, são eles próprios culpados de intolerância internacional. Essa é uma acusação séria e eu a comprovo. Permitam-me esclarecer que eu não estou acusando todos os críticos de Israel de anti-semitismo. Eu mesmo tenho criticado políticas específicas e ações de Israel ao longo dos anos, como fizeram quase todos os que apóiam Israel, praticamente todo cidadão israelense, e muitos judeus americanos. Mas também critico outros países, inclusive o meu, bem como nações da Europa, Ásia e Oriente Médio. Na medida em que a crítica é comparativa, contextual e justa, ela deve ser encorajada e não inibida. Mas, quando a nação judaica é a única a ser criticada por erros que são muito mais graves em outras nações, essa crítica atravessa a linha entre o certo e o errado, e vai do aceitável ao anti-semita.

Thomas Friedman, do New York Times, acertou quando disse que “criticar Israel não é anti-semitismo, e afirmar isso é mau. Mas condenar Israel por infâmia e sanção internacional – desproporcionalmente em relação a qualquer outra parte no Oriente Médio – é anti-semitismo e não admiti-lo é desonestidade”1. Uma boa definição usual de anti-semitismo é tomar uma característica ou uma ação largamente difundida, se não universal, e culpar apenas os judeus por ela. Foi isso que Hitler e Stalin fizeram e foi o que o antigo presidente da Universidade de Harvard A. Lawrence Lowell fez nos anos 1920 ao tentar limitar o número de judeus a serem admitidos em Harvard porque “os judeus trapaceiam”. Quando um aluno de destaque fez objeção a isso, argumentando que não-judeus também trapaceiam, Lowell respondeu: “Você está mudando de assunto; eu estou falando sobre judeus”. Da mesma maneira, quando aqueles que escolhem apenas a nação judaica para fazer crítica são questionados por que não criticam também os inimigos de Israel, eles respondem: “Você está mudando de assunto; estamos falando de Israel”.

Este livro prova não apenas que o Estado de Israel é inocente das acusações contra ele levantadas, mas que nenhuma nação na história que tenha enfrentado desafios semelhantes segue padrões mais elevados de direitos humanos, é mais sensível à segurança de civis inocentes, esforça-se mais para seguir as leis ou tem estado mais disposta a assumir riscos pela paz. Esta é uma reivindicação audaz e eu a apóio com fatos e números, alguns dos quais vão surpreender aqueles que recebem informações de fontes tendenciosas. Por exemplo, Israel é a única nação no mundo cujo sistema judiciário reforça ativamente a lei contra seus militares, mesmo em tempo de guerra2. É o único país na história moderna a devolver território disputado, capturado numa guerra defensiva e crucial para sua própria defesa, em troca da paz. E Israel matou menos civis inocentes, em comparação ao número dos seus civis mortos, do que qualquer país comprometido com uma guerra similar. Desafio os acusadores de Israel a apresentar dados em apoio à sua afirmação de que, como foi dito por um acusador, Israel “é o exemplo primeiro dos violadores de direitos humanos no mundo”3. Não serão capazes de fazê-lo.

Quando o melhor é acusado de ser o pior, o foco deve mudar para os acusadores que, eu afirmo, podem ser culpados de intolerância, hipocrisia ou, no mínimo, de uma ignorância abismal. São eles que devem estar no banco dos réus da história, junto com outros que também escolheram o povo judeu, sua religião, sua cultura ou a nação judaica para uma condenação sem igual e imerecida.

A premissa deste livro é que uma solução de dois Estados para as reivindicações palestinas e israelenses é, ao mesmo tempo, inevitável e desejável. A forma final precisa dessa solução é, naturalmente, objeto de muita disputa – como prova o fracasso das negociações de Camp David e Taba em 2000-2001 para alcançar uma solução aceitável por ambas as partes e pelas disputas em torno do “mapa da estrada” de 2003. Existem, na verdade, apenas quatro alternativas possíveis para um Estado judeu e um Estado palestino viverem em paz, lado a lado.

A primeira é a solução preferida dos palestinos, defendida pelo Hamas e outros, que rejeitam o direito de Israel existir (geralmente denominados de recusantes): especificamente exigem a destruição de Israel e a eliminação total de um Estado judeu em qualquer parte do Oriente Médio. A segunda alternativa é preferida por um pequeno número de fundamentalistas judeus e expansionistas: a anexação permanente da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e a expulsão ou integração dos milhões de árabes que atualmente habitam essas áreas. A terceira alternativa já foi a preferida dos palestinos, mas eles não mais a aceitam: algum tipo de federação entre a Cisjordânia e um outro Estado árabe (isto é, a Síria ou a Jordânia). A quarta, que sempre tem sido um pretexto para tornar Israel um Estado palestino de fato, é a criação de um único Estado binacional. Nenhuma dessas alternativas é aceitável atualmente. Uma resolução que reconheça o direito de autodeterminação por israelenses e palestinos é o único caminho razoável para a paz, apesar de não estar livre de riscos.

A solução de dois Estados também parece ser um dos poucos pontos de consenso para o conflito árabe-palestino-israelense que, de outra forma, é um dilema insolúvel. Qualquer consideração razoável de como resolver pacificamente essa disputa prolongada deve começar a partir desse consenso. A maior parte do mundo atualmente advoga uma solução de dois Estados, incluindo a grande maioria dos norte-americanos. Uma maioria expressiva de israelenses, há muito, já aceitou esse compromisso. É hoje a posição oficial da Autoridade Palestina e dos governos do Egito, da Jordânia, da Arábia Saudita e do Marrocos. Apenas os extremistas entre os israelenses e palestinos, bem como os Estados recusantes da Síria, do Irã e da Líbia, desejam que todo território do que atualmente é Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza sejam permanentemente controlados apenas por Israel ou apenas pelos palestinos.

Alguns opositores acadêmicos de Israel, como Noam Chomsky e Edward Said, também rejeitam a solução de dois Estados. Chomsky afirmou: “Não creio que seja uma boa idéia”, apesar de reconhecer que possa ser “a melhor das várias idéias ruins que andam por aí”. Há muito, Chomsky tem preferido, e aparentemente ainda prefere, um Estado único binacional baseado nos modelos do Líbano e da Iugoslávia4. O fato de ambos esses modelos terem falhado lamentavelmente e terminado em sangrento fratricídio é ignorado por Chomsky, para quem a teoria é mais importante do que a experiência. Said opõe-se firmemente a qualquer solução que deixe Israel existir como um Estado judeu: “Não creio numa solução de dois Estados. Creio numa solução de um Estado”5. Como Chomsky, ele é a favor de um Estado secular binacional – uma solução elitista e impraticável que teria de ser imposta a ambos os lados, uma vez que virtualmente nenhum israelense ou palestino iria aceitá-la (exceto como trama para destruir a outra nação).

Com certeza, os resultados de pesquisas em favor de uma solução de dois Estados variam com o tempo, especialmente de acordo com as circunstâncias. Em períodos de conflito violento, mais israelenses e mais palestinos rejeitam o compromisso, mas a maioria das pessoas razoáveis percebe que, apesar do que indivíduos possam teoricamente esperar ou mesmo reivindicar como direito divino, a realidade é que nem israelenses nem palestinos sairão ou aceitarão a solução de um só Estado. Conseqüentemente, a inevitabilidade – e correção – de algum tipo de compromisso de dois Estados é um começo útil para qualquer discussão que busque uma solução construtiva desse conflito perigoso e doloroso.

Um ponto de partida concordante é essencial porque cada parte dessa longa disputa inicia a narrativa de sua reivindicação relativa ao território em um ponto diferente da história. Isso não deveria ser surpreendente, uma vez que nações e povos em conflito geralmente escolhem como início de sua narrativa nacional o ponto que melhor serve para apoiar suas reivindicações e queixas. Quando os colonizadores americanos procuraram obter a separação da Inglaterra, sua Declaração de Independência deu início à narrativa com uma história de “repetidas injustiças e usurpações” cometidas pelo “rei de então”, tais como “taxação sem a nossa concordância” e “alojamento de muitas tropas armadas entre nós”. Aqueles que se opuseram à separação começaram sua narrativa com os erros dos habitantes da colônia, como sua recusa em pagar determinados impostos e as provocações aos soldados ingleses. De modo similar, a Declaração de Independência de Israel começa sua narrativa com a terra de Israel sendo “o local de nascimento do povo judeu”, onde “eles pela primeira vez alcançaram a cidadania... e legaram ao mundo o eterno Livro dos Livros”. A genuína carta da Constituição palestina começa com a “ocupação sionista” e rejeita qualquer “reivindicação de ligações históricas ou espirituais entre os judeus e a Palestina”, a divisão da Palestina pela ONU e o “estabelecimento do Estado de Israel”.

Qualquer tentativa de desvendar as controvérsias históricas de disputas complexas e, em última análise, não comprováveis dos extremistas israelenses e árabes somente conduz a argumentos não-realistas de ambos os lados. Evidentemente é necessário ter alguma descrição da história – antiga ou moderna – dessa terra e de sua demografia em constante mutação, nem que seja para começar a entender como pessoas razoáveis podem chegar a conclusões tão opostas a partir dos mesmos fatos básicos. A realidade, é claro, é de que há concordância em apenas parte dos fatos. Muito é defendido e considerado a verdade absoluta por alguns, enquanto outros crêem exatamente no contrário.

Essa disparidade tão acentuada de percepção resulta de vários fatores. Às vezes é uma questão de interpretação de algum acontecimento. Por exemplo, quando chegarmos ao capítulo 12, veremos que ninguém nega o fato de que centenas de milhares de árabes que viviam onde hoje é Israel não vivem mais lá. Apesar de haver disputa sobre o número preciso, a maior discordância é se todos, a maioria, alguns ou nenhum desses refugiados foi expulso de Israel. Se cada um partiu porque os líderes árabes lhe deram a ordem ou se houve alguma combinação desses e de outros fatores. Também há discordância sobre quanto tempo esses refugiados realmente viveram nos lugares depois abandonados, uma vez que a ONU definiu um refugiado palestino – ao contrário de qualquer outro refugiado na história – como qualquer um que tenha vivido no território que se tornou Israel durante apenas dois anos antes de partir.

Pelo fato de ser impossível reconstruir a dinâmica precisa e as condições que acompanharam a guerra de 1948, deflagrada pelos Estados árabes contra Israel, a única conclusão sobre a qual se pode ter absoluta certeza é que jamais alguém saberá – ou convencerá seus opositores – se a maioria dos árabes que abandonou Israel foi expulsa, abandonada ou sofreu alguma combinação de fatores que a levou de um lugar para outro. Recentemente, Israel abriu muitos dos seus arquivos históricos para os estudiosos, e novas informações conduziram a compreensões e interpretações mais amplas, mas não terminaram – e jamais terminarão – com as discordâncias.6

De modo similar, a maioria dos 850 mil judeus sefardis que viviam nos países árabes antes de 1948 foram para Israel, porque foram forçados a sair, abandonados ou experimentaram algum tipo de temor, tiveram alguma oportunidade ou foram em busca de um ideal religioso. Novamente, o movimento dinâmico e preciso da história jamais será conhecido, especialmente porque os países árabes dos quais saíram não mantêm registros e arquivos históricos ou recusam-se a fornecê-los.

Cada lado faz jus à narrativa que lhe é conveniente, embora reconheça que outros possam interpretar os fatos de modo algo diferente. Algumas vezes a disputa é mais sobre a definição de termos do que sobre a interpretação dos fatos. Por exemplo, os árabes freqüentemente argumentam que Israel recebeu 54% do território da Palestina apesar de apenas 35% dos residentes serem judeus7. Os israelenses, por outro lado, argumentam que os judeus eram uma clara maioria nas regiões da terra alocada a Israel quando a ONU fez a partição do território em disputa. Como se vê, as definições precisas podem algumas vezes estreitar as disparidades.

Um outro ponto de partida deve incluir algum tipo de lei de caducidade para ressentimentos antigos. Assim como a questão a favor de Israel não pode mais basear-se exclusivamente sobre a expulsão dos judeus da terra de Israel no primeiro século, também a questão dos árabes não pode se basear com segurança em acontecimentos que supostamente ocorreram há mais de um século. Uma razão para uma lei de caducidade é o reconhecimento de que, à medida que o tempo passa, se torna cada vez mais difícil reconstruir o passado com algum grau de precisão e as memórias políticas endurecem e substituem os fatos. Como já foi dito, “há fatos e há fatos verdadeiros”.

Com relação aos acontecimentos que precederam a primeira Aliyah em 1882 (a imigração inicial de refugiados judeus europeus para a Palestina), existem mais memórias políticas e religiosas do que fatos reais. Sabemos que sempre houve uma presença judaica em Israel, principalmente nas cidades santas de Jerusalém, Hebron e Safed, e que sempre houve uma pluralidade ou maioria em Jerusalém por séculos. Sabemos que judeus europeus começaram a se mudar para onde hoje é Israel em números significativos durante a década de 1880 – só pouco depois da época em que australianos descendentes de ingleses começaram a deslocar os aborígines australianos, e americanos descendentes de europeus começaram a se mudar para alguns territórios ocidentais, originalmente habitados por americanos nativos.

Os judeus da primeira Aliyah não deslocaram os residentes locais por conquista ou por intimidação, como fizeram os americanos e australianos. Legal e abertamente compraram terras – boa parte das quais considerada não-cultivável – de proprietários ausentes. Ninguém que aceite a Austrália como sendo legitimamente uma nação cristã de língua inglesa, ou a América ocidental como parte dos Estados Unidos, pode questionar a legitimidade da presença judaica onde hoje é Israel, de 1880 até o presente. Mesmo antes da divisão feita pela ONU, em 1947, tratados e leis internacionais reconheceram que a comunidade judaica existia na Palestina como questão “de direito”, e qualquer discussão racional do conflito deve ter como premissa que o “conflito fundamental” é de “direito com direito”. Tais conflitos são freqüentemente os mais difíceis de resolver, já que cada lado deve ser persuadido a comprometer-se com o que acredita ser uma absoluta questão de direito. A tarefa torna-se ainda mais desalentadora quando há alguns de cada lado que vêem a sua reivindicação com base num mandato divino.

Inicio a questão a favor de Israel por uma breve revisão da história do conflito entre árabes, muçulmanos e judeus e depois entre árabes, palestinos, muçulmanos e israelenses, com ênfase na recusa dos líderes palestinos em aceitar uma solução de dois Estados (ou duas pátrias) em 1917, 1937, 1948 e 2000. Focalizo os esforços pragmáticos de Israel para viver em paz dentro de fronteiras seguras, apesar dos repetidos esforços dos líderes árabes para destruir o Estado judeu. Saliento os erros de Israel, mas argumento que foram geralmente cometidos num esforço bem-intencionado (apesar de algumas vezes mal orientado) de defender a sua população civil. Finalmente, argumento que Israel procurou cumprir a lei basicamente em todas as suas atividades.

Apesar da minha forte crença de que deve haver uma lei de caducidade para ressentimentos, levantar a causa a favor de Israel requer uma breve viagem ao passado relativamente recente. Isso é necessário porque a causa contra Israel, nos dias atuais sendo levantada em campi universitários, na mídia e no mundo todo, baseia-se em distorções propositais dos registros históricos, a começar com a chegada dos primeiros europeus à Palestina, no final do século XIX, e continuando com a divisão feita pela ONU, o estabelecimento do Estado judeu, as guerras entre Estados árabes e Israel, culminando no atual terrorismo e nas reações diante dele. Os registros históricos devem ser bem estabelecidos para evitar a advertência do filósofo Santayana de que aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.

Cada capítulo deste livro começa com a acusação apresentada contra Israel, citando fontes específicas. Respondo à acusação com fatos reais embasados em provas aceitáveis. Ao apresentar os fatos geralmente não me baseio em fontes pró-Israel, mas principalmente em fontes objetivas e, algumas vezes, para enfatizar algum ponto, em fontes anti-Israel.

Provo, sem sombra de dúvida, que as ações de Israel têm sido julgadas por um duplo padrão pernicioso: que mesmo quando Israel foi o melhor entre os melhores do mundo, tem sido muitas vezes acusado de ser o pior entre os piores. Também provo que esse duplo padrão não tem sido apenas injusto com o Estado judeu, mas tem prejudicado o código da lei, ferido a credibilidade de organizações internacionais como a ONU e encorajado terroristas palestinos a cometer atos de violência para provocar reações exageradas de Israel e assegurar a condenação unilateral de Israel pela comunidade internacional.

Na conclusão do livro, argumento que é impossível entender o conflito no Oriente Médio sem aceitar a realidade de que, desde o início, a estratégia da liderança árabe tem sido a eliminação da existência de qualquer Estado judeu e mesmo de uma substancial população judaica onde hoje se situa Israel. Mesmo o professor Edward Said, o mais destacado defensor acadêmico dos palestinos, reconhece que “o nacionalismo palestino foi integralmente baseado na expulsão dos israelenses [querendo dizer judeus]”8. Esse é um fato simples, não sujeito a um questionamento razoável. As provas verbais e escritas vindas de líderes árabes e palestinos são esmagadoras. Várias táticas têm sido usadas para esse fim, inclusive a mentirosa reescrita da história da imigração de refugiados judeus para a Palestina e a história demográfica dos árabes na região. Outras táticas têm incluído o ataque a civis judeus vulneráveis a partir da década de 1920, o suporte palestino a Hitler e ao genocídio nazista nos anos 1930 e 1940 e a oposição violenta à solução de dois Estados proposta pela Comissão Peel, em 1937, e depois pela ONU, em 1948. Ainda uma outra tática foi a criação e posterior exacerbação e exploração da crise dos refugiados.

Para alguns, a simples idéia de um Estado palestino ao lado de um Estado judeu tem sido uma tática em si – um primeiro passo – para a eliminação de Israel. Entre 1880 e 1967, na verdade, nenhum porta-voz árabe ou palestino falou a favor de um Estado palestino. Em vez disso, queriam que a área chamada pelos romanos de Palestina fosse incorporada à Síria ou à Jordânia. Como Auni Bey Abdul-Hati, um proeminente líder palestino, disse à Comissão Peel em 1937, “não existe tal país... Palestina é um termo que os sionistas inventaram... nosso país foi, durante séculos, parte da Síria”. Portanto, os palestinos rejeitaram a pátria independente proposta pela Comissão Peel porque também traria consigo uma pequena pátria judaica. O objetivo sempre permaneceu o mesmo: eliminar o Estado judeu e transferir a maioria dos judeus para fora da área.

Os realistas árabes agora reconhecem que esse objetivo é inatingível – pelo menos em um futuro previsível. A esperança é que o pragmatismo predomine sobre o fundamentalismo e que o povo palestino e seus líderes finalmente cheguem a compreender que a causa a favor de um Estado palestino é fortalecida pela aceitação de um Estado judeu. Quando os palestinos desejarem seu próprio Estado mais do que desejam a destruição do Estado judeu, a maioria dos israelenses receberá pacificamente o Estado palestino como bom vizinho. O acordo que deverá seguir o “mapa da estrada” e os apertos de mão, bem como promessas trocadas em Acaba, em 4 de junho de 2003, representam alguma esperança de que a solução de dois Estados – há tempos aceita por Israel – se torne finalmente uma realidade.

Acolho a discussão vigorosa sobre a questão a favor de Israel que defendo neste livro. De fato, espero gerar um debate honesto e contextual sobre um assunto que se tem polarizado por argumentos extremistas. Certamente haverá discordâncias sobre as conclusões a que chego e as inferências que faço dos fatos históricos. Mas não pode haver discordância razoável sobre os fatos básicos: os judeus europeus que se juntaram aos seus primos sefardis onde hoje é Israel, no final do século XIX, tinham um direito absoluto de procurar refúgio na terra de seus ancestrais; estabeleceram com o suor do rosto uma pátria judaica em partes da Palestina que justamente compraram de proprietários ausentes; deslocaram bem poucos felás (árabes que trabalhavam a terra) locais; aceitaram propostas baseadas na lei internacional para uma pátria judaica repartida em áreas com maioria judaica; e, pelo menos até recentemente, quase todos os líderes palestinos e árabes categoricamente rejeitaram qualquer solução que incluísse um Estado judeu ou a autodeterminação judaica. Esses fatos indiscutíveis estabeleceram as bases do conflito que acompanhou o estabelecimento de Israel e que continua até hoje. É importante apresentar esses fatos históricos como parte da atual questão a favor de Israel porque essa distorção ou omissão fundamental na história dolorosa é um elemento da questão muitas vezes levantada contra o Estado judeu.

Decidi escrever este livro depois de acompanhar de perto as negociações de paz de Camp David e Taba, de 2000-2001, e depois de ver como tantas pessoas no mundo se voltaram contra Israel quando as negociações falharam e os palestinos retornaram ao terrorismo. Eu estava lecionando na Universidade de Haifa, em Israel, durante o verão de 2000, e pude observar em primeira mão o entusiasmo e a expectativa com os quais tantos israelenses aguardavam o resultado do processo de paz iniciado com os acordos de Oslo em 1993 e que parecia estar a caminho da aceitação de uma resolução de dois Estados, com Israel e Palestina finalmente convivendo pacificamente depois de tantos anos de violento conflito.

À medida que o processo se encaminhava para a resolução, o primeiro-ministro israelense Ehud Barak surpreendeu o mundo ao oferecer aos palestinos praticamente tudo que demandavam, inclusive um Estado com sua capital em Jerusalém, o controle do Monte do Templo, a devolução de aproximadamente 95% da Cisjordânia e toda a Faixa de Gaza e um pacote de compensação de 30 bilhões de dólares para os refugiados de 1948. Como poderia Yasser Arafat rejeitar essa oferta histórica? O príncipe Bandar, da Arábia Saudita, que estava servindo de intermediário entre as partes, exortou Arafat a “aceitar este negócio”. Você poderia alguma vez conseguir “um negócio melhor”?, perguntou. Você preferiria negociar com Sharon? Como Arafat vacilou, Bandar advertiu-o: “Espero que o senhor se lembre do que eu lhe disse. Se perdermos esta oportunidade será um crime”9.

Observei com horror como Arafat cometeu esse crime, rejeitando a oferta de Barak e abandonando as negociações de paz sem nem mesmo fazer uma contraproposta. Mais tarde o príncipe Bandar iria caracterizar a decisão de Arafat como “um crime contra os palestinos – de fato, contra toda a região”. Considerou Arafat pessoalmente responsável por todas as mortes resultantes dos conflitos entre israelenses e palestinos.10 O presidente Clinton também colocou toda a culpa pelo fim do processo sobre Arafat, como o fizeram quase todos que participaram das negociações. Mesmo alguns europeus ficaram furiosos com Arafat por abandonar essa oferta generosa. Finalmente, parecia que a opinião pública mundial estava abandonando os palestinos, que haviam novamente rejeitado a solução de dois Estados, e voltando-se para os israelenses, que haviam feito uma proposta para a saída do impasse violento.

Mas em poucos meses a opinião pública internacional novamente mudou a favor dos palestinos e contra Israel, desta vez com uma vingança. Repentinamente Israel era o pária, o vilão, o agressor e o destruidor da paz. Em campi universitários ao redor do mundo era Israel – o país que tinha acabado de oferecer tanto – o único objeto das petições de despojamento e boicote. Como tantas pessoas inteligentes puderam esquecer tão depressa quem era culpado pelo fim do processo de paz? Como o mundo podia tão depressa transformar Arafat, o vilão de Camp David, num herói e Israel, que heroicamente tinha oferecido tanto, num vilão? O que aconteceu nesse breve período para produzir uma mudança tão dramática na opinião pública?

Fiquei sabendo que o que aconteceu foi precisamente aquilo que o príncipe Bandar havia predito a Arafat que aconteceria se rejeitasse a proposta de paz de Barak: “Você tem apenas duas alternativas. Ou você aceita esta proposta ou haverá guerra”. Arafat escolheu ir à guerra. De acordo com seu próprio ministro das Comunicações, “a Autoridade Palestina começou a preparar-se para o início da atual revolta nacionalista dos palestinos a partir do retorno das negociações de Camp David, a pedido do presidente Yasser Arafat”11.

A desculpa para a escalada das explosões suicidas foi a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo. Mas, como o ministro das Comunicações alardeou, “Arafat... havia previsto o início da intifada como um passo complementar à resistência palestina nas negociações, e não como um protesto específico contra a visita de Sharon ao Al-Haram Al-Sharif [o Monte do Templo]”. De fato, a escalada do terrorismo havia começado alguns dias antes da visita de Sharon, como parte “das instruções da Autoridade Palestina” às “forças políticas e facções para conduzir todos os elementos da intifada”. Em outras palavras, em vez de mostrar “firmeza nas negociações” fazendo contrapropostas à generosa oferta de Barak, Arafat decidiu fazer a sua contraproposta na forma de explosões suicidas e aumento da violência. O príncipe Bandar acusou Arafat de responsável pelo banho de sangue resultante: “Ainda não me recuperei... da magnitude da oportunidade perdida”, declarou ele a um repórter. “Mil e seiscentos palestinos mortos até agora. E setecentos israelenses mortos. No meu julgamento, nenhuma dessas mortes de israelenses e palestinos é justificada”12.

Então, de que maneira este homem, responsável por essas mortes evitáveis, que escolheu rejeitar a proposta de paz de Barak e instruiu seus subordinados a reiniciar a violenta intifada como um “estágio complementar” às negociações, conseguiu mudar a opinião pública mundial tão depressa em favor dos palestinos e contra Israel? Essa pergunta desalentadora necessitava de uma resposta, e foi a resposta assustadora que me levou a escrever este livro.

A resposta vem em duas partes. A primeira é bastante óbvia: Arafat jogou a comprovada carta do terrorismo, que funcionou para ele tantas vezes através de sua longa e tortuosa carreira como terrorista diplomata. Ao fazer de alvo civis israelenses – crianças ou ônibus escolares, mulheres grávidas em shopping centers, adolescentes numa discoteca, famílias num jantar de Pessach, estudantes universitários numa cafeteria –, Arafat sabia que podia fazer com que Israel tivesse uma reação exacerbada, primeiro elegendo um primeiro-ministro mais sagaz para substituir o manso Ehud Barak, depois instigando os militares a tomar atitudes que inevitavelmente resultariam na morte de civis palestinos. Funcionou perfeitamente, como no passado. De repente, o mundo estava vendo imagens perturbadoras de soldados israelenses atirando em multidões, parando mulheres em pontos de controle e matando civis. Arafat havia “dominado” uma “dura aritmética da dor”, como foi dito por um diplomata: “As perdas palestinas contam a seu favor e as perdas israelenses também. A não-violência não compensa”13.

Para muitos, a simples aritmética era suficiente: mais palestinos do que israelenses estavam mortos, e só esse fato já provava que Israel era o vilão. Era ignorado o fato de que, apesar de “apenas” 800 israelenses terem sido mortos (até junho de 2003), os terroristas palestinos haviam tentado matar milhares mais e não haviam conseguido só porque as autoridades israelenses haviam frustrado “aproximadamente 80% das tentativas” de ataques terroristas.14 Também foi ignorado o fato de que entre os aproximadamente dois mil palestinos mortos havia centenas de homens-bomba, fabricantes de bombas, atiradores de bombas, comandantes terroristas e mesmo supostos colaboradores mortos por outros palestinos. Quando se contam apenas os civis inocentes, morreram significativamente mais israelenses do que palestinos15. De fato, Israel matou menos civis palestinos inocentes durante as décadas que tem combatido o terrorismo do que qualquer outra nação na história diante de tal violência, e essas mortes trágicas foram conseqüências não-intencionais do combate ao terrorismo, mais do que o objeto da violência.

Por que então tantas pessoas na comunidade internacional – diplomatas, homens de mídia, estudantes, políticos, líderes religiosos – caíram na trama transparente e imoral de Arafat? Por que não culpavam Arafat pela escalada da violência, como fizeram o príncipe Bandar e outros? Por que culpavam Israel tão apressadamente? Por que líderes morais e religiosos, que geralmente traçam uma clara distinção entre aqueles que propositalmente alvejam civis inocentes e aqueles que inadvertidamente matam civis, num esforço de proteger seus próprios civis, eram incapazes de fazer essa importante distinção quando se tratava de Israel? Por que não compreenderam como a liderança palestina estava manipulando e explorando a aritmética da morte? Por que não podiam ver além da contagem de corpos e focalizar o correto cálculo moral: quantas pessoas inocentes foram deliberadamente transformadas em alvos e mortas de cada lado?

Procurando responder a essas perguntas perturbadoras, tornou-se claro para mim que forças obscuras estavam em jogo. A mudança dramática e quase total nas percepções do público num período tão curto de tempo não podia ser explicada com base exclusiva em princípios da lógica, moralidade, justiça – mesmo política. As respostas estavam, pelo menos em parte, no fato de Israel ser o Estado judeu e o “judeu” entre os Estados do mundo. Uma total compreensão das reações bizarras do mundo à generosa proposta israelense de paz e a violenta resposta palestina requer o reconhecimento da longa e difícil história mundial no julgamento do povo judeu por padrões diferentes e muito mais exigentes.

O mesmo ocorre com a nação judaica. Pouco após o seu estabelecimento como primeiro Estado judaico moderno do mundo, Israel tem sido avaliado segundo um duplo padrão de julgamento e crítica de suas ações ao defender-se contra ameaças à sua própria existência e à sua população civil. Este livro é sobre este duplo padrão – a sua injustiça em relação a Israel e, mais importante, seu pernicioso efeito ao encorajar o terrorismo palestino e outros.

Se o tom deste livro algumas vezes pode parecer contencioso, é porque as acusações atuais contra Israel freqüentemente são estridentes, intransigentes, unilaterais e exageradas: “tipo nazista”, “genocida”, “exemplo clássico de violadores de direitos humanos no mundo”, e assim por diante. Essas falsas acusações devem ser respondidas direta e verdadeiramente antes de se poder restaurar um tom de compromisso e reconhecimento mútuo de erros, e os assuntos serem debatidos nos seus méritos e deméritos freqüentemente complexos. Mas, com demasiada freqüência, o debate atual, especialmente nos campi universitários, é caracterizado por acusações contenciosas e unilaterais feitas por aqueles que desejam demonizar Israel. São freqüentemente respondidas pelo reconhecimento bastante mais franco de erros por defensores de Israel e um tom de desculpa que muitas vezes serve aos acusadores.

O avanço em direção à paz somente virá quando ambos os lados quiserem reconhecer seus próprios erros e culpas e ir além das acusações do passado para um futuro de compromisso mútuo. Uma atmosfera favorável a tal compromisso não será alcançada se o ar não for purificado das acusações falsas, exageradas e unilaterais que agora poluem a discussão em tantas colocações. A finalidade deste livro é ajudar a purificar o ar, fornecendo defesas diretas e verdadeiras a falsas acusações. O tom dessas defesas, algumas vezes, necessariamente espelha o tom das acusações. A principal característica dos meus escritos, discursos e aulas durante anos sempre foi ser direto e não criar intrigas ou preocupar-me em ofender aqueles que, com base em suas ações intolerantes e falsas acusações, merecem ser ofendidos. Procuro seguir esse caminho neste livro.

Uma vez purificado o ar dos poluentes da intolerância e da falsidade, um debate mais diferenciado pode ser iniciado sobre políticas especificamente israelenses – bem como sobre políticas especificamente palestinas. Este livro não é parte desse debate, apesar de eu ter minhas próprias opiniões sobre muitas dessas questões. Enquanto Israel for particular e falsamente acusado de ser o principal infrator, a primeira obrigação daqueles comprometidos com a verdade e a justiça é refutar essas acusações – de modo firme e inequívoco.

Freqüentemente, perguntam-me como, na qualidade de civil defensor do livre-arbítrio e liberal, posso apoiar Israel. A implicação por trás da pergunta é que devo estar comprometendo meus princípios ao apoiar um regime tão “repressivo”. A verdade é que apóio Israel precisamente porque sou um civil defensor do livre-arbítrio e liberal. Também critico Israel sempre que suas políticas violam o rigor da lei. Tampouco procuro defender ações chocantes de Israel ou de seus aliados, tais como as matanças de 1948 por tropas irregulares de civis em Deir Yassin, o massacre falangista de palestinos em 1982 no campo de refugiados de Sabra e Shatila ou os assassinatos em massa de muçulmanos orando por Baruch Goldstein em 1994. Como em qualquer outra democracia, Israel e seus líderes deveriam ser criticados sempre que suas ações deixem de atingir padrões aceitáveis, mas o criticismo deveria ser proporcional, comparativo e contextual, como deveria ser também em relação a outras nações.

Defendo a causa de Israel com base em considerações liberais e de defesa da liberdade civil, apesar de acreditar que os conservadores também deveriam apoiar o Estado judeu com base em valores conservadores. Não peço a ninguém que faça concessões a seus princípios. Antes, o meu pedido é que todas as pessoas de boa vontade simplesmente apliquem ao Estado judeu de Israel os mesmos princípios de moralidade e justiça que aplicam a outros Estados e povos. Se aplicassem um só padrão de justiça, a causa a favor de Israel se resolveria por si. Mas, como tantas pessoas insistem em ser mais exigentes em relação a Israel, eu agora defendo a causa segundo a qual, num julgamento por qualquer padrão racional, Israel merece o apoio – embora, certamente, não o apoio sem crítica – de todas as pessoas de boa vontade que atribuem valor à paz, à justiça, à honestidade e à autodeterminação.



1. Thomas Friedman, “Campus hypocrisy”, New York Times, 16 de outubro de 2002.
2. V. capítulo 28.
3. V. capítulo 28.
4. A preferência de Chomsky por um modelo federal “ao longo das linhas da Iugoslávia” é articulada em Middle east illusions (Oxford, Rowman & Littlefi eld, 2003), pp. 105-106. A sua defesa do Líbano como um modelo vem de um debate comigo em 1970.
5. Atlantic unbound (publicação on-line no Atlantic Monthly). Entrevista de Said por Harry Bloom, 22 de setembro de 1999, www.theatlantic.com/unbound/interviews/ba990922.htm.
6. V. Benny Morris, Righteous victims (Nova York: Vintage Books, 2001), p. XIV.
7. V. capítulo 9.
8. Atlantic unbound, 22 de setembro de 1999.
9. V. capítulo 17.
10. V. capítulo 17.
11. V. capítulos 16 e 17.
12. V. capítulo 17.
13. James Bennet, “Arafat’s edge: violence and time on his side”, New York Times, 18 de março de 2002.
14. Bruce Hoffman, “The logic of suicide terrorism”, Atlantic Monthly, junho de 2003, p. 45.
15. V. capítulo 18.