sábado, 27 de abril de 2013

Mais um crime brutal que ficará impune


A sociedade está chocada mais uma vez com um crime bárbaro, brutal, sem sentido. Outra vez, com o envolvimento de um menor de 18 anos.

Cinthya Magaly Moutinho de Souza, dentista, de 46 anos, morreu queimada. Seus assassinos atearam fogo a seu corpo porque ela só tinha R$30,00 na conta bancária. Fugiram no Audi da mãe de um deles.

Quem é capaz de tal ato ultrapassou os limites que permitem que os seres humanos convivam em sociedade. Considero que isso é irreversível. Não acho que alguém que tenha chegado a esse ponto seja capaz de voltar dele. Se eles fossem submetidos a qualquer tipo de castigo cruel, desumano ou degradante que se possa imaginar, eu não teria o menor dó. Porém, reconheço a humanidade dos quatro, essa humanidade que eles não reconheceram em Cinthya. São gente como você e eu e, portanto, sua pessoa é e deve ser inviolável. Na minha república ideal, provavelmente cumpririam prisão perpétua. Ficariam numa cela limpa, de preferência sem a companhia de outros presos, com alimentação saudável, assistência médica, uma biblioteca e uma horta, para o caso de quererem trabalhar. Pelo resto da vida. Se eles saíssem, a sociedade estaria ameaçada.

Porém, eles vão sair. Os maiores de idade podem ser condenados a, no máximo, 30 anos. Com a progressão de regime garantida por nossa Lei de Execução Penal, serão libertados depois de 12 anos. O menor de 18 anos não pode ficar internado mais de 3 anos. Não saberemos seu nome. Ele poderá exercer plenamente sua cidadania, trabalhando em qualquer lugar, candidatando-se a cargos públicos, sem qualquer tipo de restrição. Se quiser obter uma arma legal, provavelmente conseguirá. O nome que dou a isso é impunidade.

A legislação brasileira não protege a sociedade. Posso dizer isso logo depois de um crime chocante ou em outro momento em que não tenha ocorrido um crime recente. Mas muitas pessoas dirão que não podemos legislar sob o impacto dos acontecimentos. E não legislaremos nem com nem sem esse impacto.

Quero ressaltar que duas coisas que não têm nada a ver com esse crime são o governo e a venda legal de armas. O governo pode fazer policiamento ostensivo, ter excelentes ações de inteligência, melhorar as condições salariais e de trabalho dos policiais, aumentar o controle da sociedade sobre as ações de segurança, o que for. Não tem como impedir que um grupo de psicopatas decida cometer uma ação bárbara e seja bem sucedido. A única coisa que as forças de segurança podem fazer nesse caso é prendê-los depois do fato. E o crime não foi cometido com armas legais. A venda delas ou sua proibição seriam indiferentes neste caso.

Inúmeros poetas do crime vão culpar "a sociedade", "a desigualdade", "a opressão", "a miséria" ou "a ostentação". Ora, resta evidente que o criminoso tinha condições econômicas melhores que sua vítima neste caso. Se neste caso a culpa não é da "sociedade", posso supor que também não seja em outros. O objetivo do desabafo que escrevo é declarar que o crime é uma decisão moral, de responsabilidade exclusiva do indivíduo que o comete.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Deus da Máquina, capítulo II


No segundo capítulo de O Deus da Máquina, O Poder das Ideias, Isabel Paterson questiona por que sentimos que os fenícios, que foram tão poderosos e importantes em seu tempo, não nos legaram nada. Entendemos que somos herdeiros dos gregos e dos romanos, mas não dos fenícios. Ocorre que a estrutura da Europa e depois a do Novo Mundo se originaram de três ideias: uma grega, uma romana e a terceira, que será tratada no próximo capítulo.

Costumamos pensar no valor da arte e da literatura da Grécia. Mas as artes gregas são estáticas. A arquitetura é extremamente simples e inorgânica. Politicamente, os gregos usaram a lógica para superar a tradição, mas não encontraram um princípio. Como resultado, não conseguiram um sistema estável. A ideia revolucionária dos gregos, encarnada em Pítias, é a Ciência.

Os gregos entenderam que o conhecimento tem valor em si mesmo e que é possível relacionar o conhecimento de áreas diversas, sistematizá-lo e ampliá-lo indefinidamente. Porém, desprezavam as aplicações práticas do que descobriram. Acreditavam que o objetivo de sua pesquisa devia ser unicamente o prazer intelectual de conhecer a verdade.

Subitamente, foram conquistados pelos romanos, que haviam tido outra ideia revolucionária: a Lei. Povos primitivos acreditam que suas leis são imutáveis, baseiam-se no costume. Porém, quando as condições mudam de maneira muito abrupta, o costume não é suficiente para lidar com a nova situação. Surge a necessidade de haver uma liderança que decida o que fazer. Isso resolve o problema por algum tempo, até que a sociedade se torne mais complexa. Quando são necessárias instituições mais permanentes e organizadas, a liderança não dá conta disso e aparece a monarquia. É fácil a monarquia se converter em despotismo.

Talvez Roma nunca tenha sido uma comunidade bárbara. Sabemos que, desde cedo, usava-se dinheiro em Roma e as terras eram propriedade privada. São elementos de uma civilização avançada. Roma também concedia asilo a estrangeiros. Era necessário nascer grego, mas era possível tornar-se romano. Com esse contexto, Roma procurou resolver o problema da estrutura de governo em bases racionais e criou a República. A base da sociedade era a família. Havia os clãs, que eram uma aristocracia sem a hierarquia do feudalismo posterior. Havia os plebeus, que eram a massa da população, mas não necessariamente os pobre. E um dos pilares do sistema que construíram eram as tribos, uma divisão territorial, não ligada à ancestralidade.

Havia diversos mecanismos para proteger a sociedade de tentativas de usurpação: dualidade nos cargos, mandatos fixos e curtos, controle civil sobre os militares, igualdade entre os senadores, liberdade de expressão. E um mecanismo de obstrução: os tribunos da plebe. Esse sistema funcionou por séculos.

O Poder das Ideias

O Deus da Máquina
O Poder das Ideias
Isabel Paterson



Na perspectiva histórica, os fenícios são únicos; embora tenham tido uma participação ativa e extraordinária nos eventos de seu tempo, foi no papel de antagonistas. No instante em que desapareceram, desvaneceram-se em irrealidade, sem deixar resíduo. Não sentimos que tenham nos legado nada de substancial, nada que tenha se incorporado a nossos ossos, se entrelaçado na textura de nossa vida. É extremamente paradoxal, uma vez que nossa herança da Grécia e de Roma consiste em abstrações, enquanto os fenícios eram práticos e tiveram sucesso com um tipo de organização internacional. Acima de tudo, tocaram os pontos em que nossas ideias vitais se originaram. Sua atividade estimulou a Grécia a especular e forçou Roma a se expandir; erigiram o Templo de Jerusalém e receberam como garantia as humildes aldeias da Galileia. Foram transportadores e catalisadores. Porém, parece que começamos novamente com a Grécia e com Roma. Racionalmente, não pode ser verdade; mas a ilusão deve ter uma razão. É que os fenícios eram intrinsecamente um fenômeno físico. Conectaram-se a um circuito de energia ao qual seu mecanismo político não podia se ajustar. Nos assuntos humanos, o que dura é apenas o que está no pensamento dos homens. A humanidade como tal é um conceito intelectual. Como nação, os fenícios se desintegraram pelo impacto de uma nova ideia. Mas três novas ideias já estavam nascendo, que formariam a estrutura da Europa e, mais tarde, recombinando-se, criariam o Novo Mundo. Essas ideias complementares precisam ser relembradas.

A fama da Grécia é normalmente identificada com a arte e as letras; mas a influência duradoura da Grécia não deriva de nenhuma das duas. A arquitetura grega é do mais simples design, inorgânica como um cristal, famosa pela proporção delicada e pela refinada ornamentação, mas sem indicar nenhum desenvolvimento posterior. A escultura grega fixava um tipo escolhido em perfeição imutável. A arte da Grécia era autocontida e estática. Escapa dos limites pela qualidade atemporal de um momento de beleza salvo e preservado, desafiando o fluxo eterno. Da mesma maneira, os gregos estavam num beco sem saída em seu sistema social. Suas divindades não possuíam ordem moral, representando, em vez disso, o capricho indiferente da natureza em relação ao homem. Além disso, os deuses tornaram-se distantes; para os homens educados, a fé era diluída numa fantasia poética. Como consequência, os gregos tendiam a considerar o universo como fenômeno puro. Os costumes domésticos gregos não faziam do lar um centro de forte envolvimento emocional. O companheirismo mental era procurado em outro lugar; restrições normais foram afrouxadas a um grau sem precedentes. O método político grego era análogo a tudo isso, como é de se esperar num lugar em que a lógica suplantou a tradição e, mesmo assim, não encontrou um princípio. A democracia é puro processo, consistindo em uma série de expedientes pragmáticos, aos quais se chegava pelo voto da maioria, pelo veredito dos números. Seus resultados são aleatórios e não há continuidade, exceto nas pessoas envolvidas. Na verdade, funciona pela força do costume e é, portanto, irrealizável exceto com uma pequena comunidade de uma cultura completamente homogênea. Mesmo assim, pelo hábito grego de pensamento, que era a livre investigação, o costume já estava desacreditado. A democracia inevitavelmente descamba em tirania; mas enquanto está instável, pode deixar temporariamente uma larga margem de conduta e pensamento não regulados. Não se presume que seja assim por direito; isso ocorre porque o poder do todo (o povo) é teoricamente um poder plenário indiferenciado em suas partes ou agências. O que é problema de todos não é problema de ninguém. O poder pleno só pode ser exercido em uma economia fechada, como a que havia em Esparta, onde realmente não havia nenhuma margem para nada. Os atenienses, estando abertos ao comércio, por algum tempo tomaram a liberdade de pensar. O comércio e as viagens permitiram que fizessem observações comparativas; eram ávidos por ouvir coisas novas. A ideia que desenvolveram, tomada por si mesma, corroeu as instituições que possuíam; agravou o perigo em que estavam ao enfraquecer o tecido social. Ainda assim, eles a formularam corajosamente; e foi sua contribuição para o futuro. Pítias a encarnou. Os gregos tiveram a ideia da ciência.

Os selvagens adquirem informações sem classificá-las em categorias conforme os atributos ou qualidades das coisas. Sociedades mais avançadas, mas ainda estabelecidas sobre a tradição, possuem ramos separados de conhecimento que são basicamente considerados como dados pela divindade. Assim, uma investigação mais aprofundada de certas questões pode ser proibida como ímpia. Os gregos tinham as fábulas premonitórias de Prometeu e de Ícaro. Entretanto, perceberam que todo conhecimento poderia ser interconectado e que seria possível ampliá-lo indefinidamente por meio da pesquisa racional. Examinaram os processos do intelecto, aguçaram e testaram suas mentes para se concentrarem em generalizações e na busca por axiomas. De maneira inconsistente, desprezaram a aplicação prática. Ciência, diziam, deve ser buscada pelo prazer intelectual de se conhecer a verdade. Essa atitude singular surgiu das condições políticas adversas. A aplicação da ciência à produção necessita de respeito à propriedade privada, de trabalho livre e de tempo suficiente para que os benefícios oriundos do esforço e do capital despendidos possam retornar. No caso dos gregos, a instabilidade inescapável da democracia não dava nenhuma segurança ao indivíduo contra a massa, nem à nação contra um ataque externo. Porém, enquanto as ideias de um homem permanecerem puramente especulativas e o usufruto confinado ao prazer intelectual, ele não poderá ser privado dessas coisas enquanto viver e é assim que ele vai deixar que as coisas fiquem. Um homem só pode pensar e trabalhar efetivamente se for por seu próprio benefício.

Ainda assim, essa negação extraordinária pode ter tido alguma utilidade naquelas circunstâncias, ao enfatizar o valor intrínseco do pensamento. E é verdade que, quando os homens ficam absorvidos em dispositivos práticos, correm o risco de estreitar seu campo de visão e perder de vista a interconexão entre os vários ramos do conhecimento. Mais que isso, como é o caso em questão, irão até se esquecer dos princípios mais amplos que aplicaram e dos quais depende seu bem-estar.

Mas a implicação que os gregos deixaram de lado era, no fim das contas, inescapável. A ciência é o governo da razão. Em vez de se resignar ao destino inexorável do cego acaso, poderia ser possível, discernindo-se as causas dos eventos, ordená-los segundo a vontade e realizar o que os homens desejam. Uma abstração moverá uma montanha; nada pode resistir a uma ideia. Os gregos encontraram a alavanca.

Aparentemente, os eventos zombaram deles. Enquanto filosofavam, a montanha se moveu numa avalanche; Roma os conquistou. A julgar pela aparência, dir-se-ia que foi uma vitória da substância bruta, uma refutação da premissa oculta de superioridade da mente sobre a matéria. Não foi; ao contrário, mesmo em sua ocorrência imediata, foi uma vitória do intelecto. Roma também desenvolveu uma abstração, um conceito político, que estava entre os universais. Roma teve a ideia da lei.

Todas as nações possuem leis; os mais primitivos selvagens estão obrigados por costumes e um costume que obriga é uma lei. Um tabu é uma lei petrificada. Povos primitivos acreditam que suas leis são permanentes, mesmo que arbitrárias, como "a lei dos medas e persas, que não pode ser alterada".1 O significado efetivo é que o costume pode se alterar somente por graus imperceptíveis, se deve se manter válido. Um costume não pode ser novo. A consequente desvantagem é que, se um costume reinante é subitamente quebrado, não há um substituto imediato. O que pode acontecer, por causa de guerra, peste, migração, ou até por inovações que seriam benéficas, é um período de confusão, em que o hábito é interrompido e são tentados expedientes; mas as instituições resultantes não podem durar a menos que estejam imbuídas de sentimentos tradicionais. É claro que o tecido da tradição nunca é completamente destruído. Entretanto, uma vez que o costume não pode se alterar rapidamente e, acima de um nível elementar de cultura, haverá a necessidade ocasional de decidir um curso de ação que pode afetar o grupo, um conselho informal e um líder são a evolução óbvia. Parece ser suficiente para um bando de caçadores nômades. O próximo passo, seja um grupo de pastores nômades ou agricultores primitivos, pede uma organização mais definida de caráter permanente; para garantir a continuidade, a posição do chefe acabava se tornando mais ou menos hereditária, com o sistema patriarcal de clãs. O clã era uma família permanente; muitos idiomas ainda comprovam desse conceito. Se for necessária uma distinção entre um chefe e um rei, no uso moderno é no grau de organização formal, marcado pela nomeação ou reconhecimento de autoridades com cargo fixo e deveres específicos. A evolução simultânea, junto com o governo secular, de um clero com autoridade moral é significativa. Teve seu sentido próprio. A "divisão de poderes" – ou seja, a existência de agências opostas de autoridade moral e poder físico – é uma característica natural da sociedade; portanto, também é necessária na forma de governo para garantir a estabilidade.

Mas todas essas formas de associação são efetivas apenas em condições apropriadas e têm seus defeitos inatos. O costume não é capaz de lidar com o inesperado. A liderança não funciona com instituições organizadas. A monarquia torna-se despótica. Cada tipo de associação é adequado a um determinado modo de conversão de energia e vai entrar em colapso ou se fundir em rigidez se for obrigada a receber um potencial maior do que pode acomodar.

Quando uma nação passa por condições em que o costume se mostra perecível, a liderança desastrosa e a monarquia opressiva, a razão deve definir a fonte primária de autoridade, para investi-la em uma forma viável.

Por essa sequência, provavelmente encurtada, Roma tornou-se um laboratório político. O que entrou no cadinho precisa ser deduzido a partir dos mitos, lendas, tradições e instituições que se formaram nos obscuros séculos da história inicial da cidade. Não parece que Roma tenha sido nunca primitivamente bárbara, se a cidade teve seu princípio no comércio, usando dinheiro2 e tornando as terras propriedade privada; são elementos de uma civilização avançada. E as fábulas são frequentemente inconsistentes, como seria o caso se fossem parcialmente importadas e misturadas. Histórias como a de Rômulo e Remo e do estupro das Sabinas não podem ser aceitas literalmente; nem precisam ser de origem local. O roubo de noivas faz parte de uma cultura bárbara, na qual não há desonra. A crença de que uma loba amamentou Roma deve ser ainda mais antiga e pode ser derivada de um totem selvagem; mas não necessariamente, porque quando a Europa era bárbara, um proscrito era uma "cabeça de lobo", uma antiquíssima figura de linguagem. A sugestão nas três histórias é de que Roma sempre foi mais ou menos uma cidade aberta, admitindo refugiados, exilados ou imigrantes. Eles trariam costumes variados que deveriam ser harmonizados segundo regras gerais.

De toda forma, a figura do asilo certamente se incorporou ao sistema social e legal romano e, por fim, criou o caráter especial da cidadania romana. Caracteristicamente, era necessário nascer grego, mas era possível se tornar romano.

Outra vez, podemos suspeitar de um resquício de antigas dificuldades em encontrar um modo avançado de associação que funcionasse, por causa de uma instituição peculiar a Roma. É uma instituição altamente extraordinária num povo civilizado, porque existia completamente fora da ordem social. Ninguém sabia exatamente qual a sua função, no sentido em que todos sabiam o que significavam as Virgens Vestais. Esse cargo realizou seu objetivo de maneira tão completa que o objetivo foi esquecido. Embora famosos por sua coragem militar, os romanos não praticavam duelos, nem toleravam a vingança privada informal. Porém, existia um homem, que devia ser um criminoso, dedicado a uma ocupação que tinha de ser conquistada e mantida por assassinato. Esse homem era o Sacerdote de Nemi, “beneath Aricia's trees”.

Those trees in whose dim shadow
The ghastly priest doth reign,
The priest who slew the slayer,
And shall himself be slain.3

Quem estava incumbido desse posto sanguinário havia obtido essa função matando o ocupante anterior. Ele nunca poderia deixar o abrigo do bosque sagrado e estava permanentemente sujeito a ser atacado por outro fora-da-lei que conseguisse alcançar esse santuário da morte. O Sacerdote do Ramo Sagrado foi explicado com referências eruditas a ritos de sacrifício, o bode expiatório que carrega os pecados do povo ou o deus-rei que morreu e foi ressuscitado, como o sol, para garantir a fertilidade dos campos e da tribo. Esses rituais mágicos podem ter sido incorporados pelo sacerdócio de Nemi. Mas os romanos eram solidamente prosaicos até em suas superstições. Suas divindades eram principalmente úteis, com funções práticas definidas. Bem, em sua origem, havia um uso prático para o sacerdócio de Nemi. Era desestimular atentados contra a liderança. Não se pode imaginar uma medida mais ironicamente efetiva para desencorajar tais ambições que a determinação de um ponto em que os aspirantes devem enfrentar contendores e onde o vencedor deve continuar, para sempre, sujeito ao mesmo desafio. Que ele tenha o que pediu e fique satisfeito – o recurso à força. Obviamente, apenas homens já banidos procurariam o santuário terrível. São esses os termos sob os quais o homem deve existir quando não há lei. Estando já muito avançados, tendo superado os estágios do costume e da liderança, e sendo conscientes da ineficácia da democracia, os romanos foram obrigados a resolver o problema do governo em termos racionais, trabalhando com o que tinham. Tinham a família como a unidade social, compensada pela lei contratual sobre a propriedade, o que fazia do indivíduo a unidade política. Assim, a família não podia se dividir numa forma realmente feudal. Tinham clãs (gentes), de antiga linhagem local, que podiam ser reconhecidos como uma aristocracia, mas não em ordem hierárquica feudal. Tinham uma população grande e variada, os plebeus, palavra que significa apenas multidão, as massas; mas não necessariamente os pobres. O elemento mais importante eram as tribos, ou seja, a divisão da cidade em áreas específicas, que supostamente restaram da união prévia de três comunidades. Essas divisões eram estritamente territoriais e políticas, com fronteiras fixas; as pessoas eram incluídas nelas por local de residência, não por descendência. Essas tribos tinham igual representação por direito a partir da propriedade de terras, moradia; e tinham a obrigação de suprir contribuições iguais para a defesa militar. Representação vinculada à área. Mudanças subsequentes – áreas adicionais, divisões novas ou subdivisões por razões políticas – mantiveram essa forma; havia fronteiras regionais e representação.

Roma nunca foi um “todo” indiferenciado, uma simples agregação de partículas, como postula a teoria da democracia. Desde o início, a cidade de Roma foi uma federação, com a forma federal, que engloba bases permanentes e estrutura, os elementos da arquitetura. Tanto os elementos como a forma precisam de um sistema eletivo; e os romanos primeiro tentaram um mandato vitalício para um executivo eleito. Foi completamente insatisfatório, porque não é possível haver controle confiável ou limitação dos poderes executivos nesse caso.4 Tendo-se livrado de seus presidentes vitalícios (reis), os romanos tomaram rigorosas precauções contra seu retorno por usurpação. Eles não teriam só um executivo chefe; e, mesmo em posições mais baixas, inclinavam-se por ter dualidade de cargos, o que funcionava muito bem no conjunto. Os cargos políticos também eram restritos a mandatos fixos e curtos, com rotatividade de exercício e intervalos em que um candidato não poderia ser reeleito. Essa última disposição é correta, já que a única razão para determinar um tempo de mandato é poder tirar o ocupante. O principal objeto de votações, em qualquer caso, era o voto contra pessoas ou medidas. Os romanos também suspeitavam continuamente de seus generais, proibindo até um comandante vitorioso de reentrar na cidade sem permissão formal. Estavam determinados a impedir a tomada militar da autoridade civil. E foram assombrosamente bem-sucedidos, considerando sua posição, que necessitava de uma boa porção de defesa e constante prontidão militar. Nenhuma outra nação antiga manteve esse controle civil sobre o exército por centenas de anos.

Os cargos políticos eram ocupados principalmente pela aristocracia e eram em parte eletivos, em parte sujeitos a nomeação ou preenchidos por cooptação; os diferentes métodos, com mandato vitalício apenas para senadores, impediam a rigidez excessiva ao mesmo tempo em que preservavam a continuidade. Também era possível que homens de talento excepcional subissem a partir dos escalões inferiores. Nada era absolutamente petrificado em status. A igualdade dos senadores (diferente do que ocorre em uma aristocracia hierárquica) e a eleição de outras autoridades não apenas permitia, mas exigia o debate público no corpo de governo e a livre expressão de opiniões pelos cidadãos. Como tanto os eleitores como os ocupantes de cargos públicos possuíam propriedades, tinham um interesse sólido em manter a nação funcionando, com a concomitante obrigação de defesa militar.

Mas o golpe inigualado de gênio político foi que o estado romano previa não apenas o adiamento, mas o impasse concreto. O poder dos plebeus, por meio de seus tribunos, era de obstrução manifesta. Os tribunos da plebe não podiam propor nenhuma medida, mas podiam parar os trabalhos; e suas pessoas eram invioláveis. Nada é mais essencial ao bem-estar de uma nação que a restrição ao governo, por meios legítimos. Um mecanismo sem freios, um motor sem dispositivo de corte, foi construído para a autodestruição. O sistema romano era durável porque era organizado de tal maneira que as tensões se transformavam em força e o controle era assegurado pela separação entre a agência executiva e o dispositivo de corte. Essa realização se tornou possível pela definição da fonte de autoridade. “Os romanos possuíam, desde os tempos mais antigos o conceito de jus, que é mais amplo que o de direito positivo declarado por uma autoridade, e denota uma ordem que obriga moralmente os membros da comunidade, tanto humanos quanto divinos.”5

Essa ideia de direito como um conceito abstrato não é dada pelo costume, pela liderança, por um conselho ou um rei; tampouco é compatível com a democracia. Em todos esses casos, a autoridade é arbitrária, tendo sido dada ou num costume particular, ou depositada em pessoas por precedência (ancestralidade ou antiguidade) ou determinada pelo número. Os romanos afirmaram que há uma ordem moral no universo.


  1. O Ciclo de Energia no Mundo Clássico
  2. O Poder das Ideias
  3. Roma Descobre a Estrutura Política
  4. Roma como uma Demonstração da Natureza do Governo
  5. A Sociedade do Status e a Sociedade do Contrato
  6. Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo
  7. O Nobre Selvagem
  8. A Falácia do Anarquismo
  9. A Função do Governo
  10. A Economia da Sociedade Livre
  11. O Significado da Magna Carta
  12. A Estrutura dos Estados Unidos
  13. Escravidão, o Defeito na Estrutura
  14. A Virgem e o Dínamo
  15. As Emendas Fatais
  16. As Corporações e a Lei do Status
  17. A Ficção da Propriedade Pública
  18. Por que Dinheiro Real É Indispensável
  19. Crédito e Depressões
  20. O Humanitário com a Guilhotina
  21. Nosso Sistema Educacional Niponizado
  22. O Circuito de Energia em Tempos de Guerra
  23. A Economia Dinâmica do Futuro

1 Daniel 6:8 (N. do T.)
2 A familiaridade com a função do dinheiro permitiu a Roma governar um império no devido tempo. Diz-se que os espartanos, não sendo acostumados ao dinheiro, eram rapidamente pervertidos quando abandonavam sua modesta economia de subsistência. Não conseguiam manter o mínimo de honestidade em relações contratuais, tendo sido criados no comunismo. No nível mais baixo, não eram capazes nem mesmo de entender os limites da corrupção. (N. da A.)
3 "Além das árvores de Arícia / Aquelas árvores em cuja sombra escura / O sacerdote espectral impera / O sacerdote que assassinou o assassino / E será ele mesmo assassinado." Do poema The Battle of the Lake Regillus (A Batalha do Lago Regilo), escrito por Lord Thomas Babington Macaulay em 1842. (N. do T.)
4 Uma monarquia constitucional hereditária só é possível como um desenvolvimento a partir do verdadeiro feudalismo. A condição necessária é a sobrevivência de uma aristocracia fundiária com herança inalienável. Quando isso desaparece, a monarquia afunda em seguida. (N. da A.)
5 CAMBRIDGE ANCIENT HISTORY: The Primitive Institutions of Rome. H. Stuart Jackson. Macmillan. (N. da A.)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Deus da Máquina, capítulo I

O Ciclo de Energia no Mundo Clássico, primeiro capítulo de O Deus da Máquina, de Isabel Paterson, nos apresenta Pítias, o navegador grego que cruzou o Estreito de Gibraltar, por volta de 300 A.C., e navegou pelo Atlântico. Ele era um misto de cientista e aventureiro. Precisou de grande coragem para empreender sua viagem solitária, e relatou com precisão técnica suas descobertas geográficas e de astronomia aplicada à navegação. Principalmente porque, nessa época, os fenícios controlavam o Estreito de Gibraltar e bloqueavam completamente a navegação por ali. Quem tentasse furar o bloqueio tinha grandes chances de ser morto.

Isabel lembra que os fenícios são mencionados no Antigo Testamento, quando Salomão contrata os homens de Hirão, rei de Tiro, para construir seu palácio e depois o Templo. A partir de onde hoje é a Síria, os fenícios avançaram como um furacão rumo a oeste, até a Espanha. Sua maior realização foi Cartago, metrópole comercial entre o mar e o deserto.

Ela menciona as longas guerras entre a Grécia e Cartago, cujo resultado ainda era indefinido quando surgiu Roma e derrotou ambas. As Guerras Púnicas, entre Roma e Cartago, foram predominantemente navais. Enquanto os gregos e os cartagineses tinham grande experiência no mar, a marinha romana era completamente improvisada. Ela diz que "os romanos recuperaram uma embarcação púnica encalhada e o usaram como modelo para construir uma frota, enquanto treinavam as tripulações necessárias em terra, usando bancadas estacionárias dotadas de remos". Mas tentaram transformar um encontro no mar em algo semelhante a um combate em terra e isso deu certo. Conseguiram sucessivas vitórias contra os cartagineses.

Ela lembra que, no tempo da Invencível Armada, a Espanha dominava os mares e a marinha inglesa era mais fraca e improvisada. Porém, a Inglaterra destruiu a Armada. E compara os romanos com os franceses de Napoleão e o Sul dos Estados Unidos na Guerra Civil, levantando algumas hipóteses para a vitória de Roma e rejeitando-as em seguida.

Sobre a famosa expedição de Aníbal com elefantes cruzando os Alpes rumo a Roma, Isabel considera que a estratégia foi correta. Porém, Aníbal esperava que nações subsidiárias de Roma se rebelassem contra ela e isso não aconteceu. Mas, quando Cipião levou a guerra para a África, aliados tradicionais de Cartago o apoiaram.

Não são as vantagens materiais o que determinou a vitória dos romanos sobre os cartagineses. Os imponderáveis são mais importantes que qualquer fator material. As questões levantadas aqui serão respondidas nos capítulos posteriores.

O Ciclo de Energia no Mundo Clássico


O Deus da Máquina, capítulo I
O Ciclo de Energia no Mundo Clássico
Isabel Paterson


Pouco antes do fim do quarto século antes de Cristo, um navegador de uma colônia grega velejou do porto de Massília (atual Marselha), sua cidade natal, através do Estreito de Gibraltar e, dali, pela costa da Espanha, da França e das Ilhas Britânicas até Última Thule, o nome dado ao fim do mundo. Possivelmente Thule era a Islândia; isso ainda é objeto de conjecturas. O nome do ousado marinheiro, Pítias, chegou até nós. Ele aparece em nossa imaginação – uma figura solitária cercada de luz – como se um portal pendesse aberto entre as Colunas de Hércules, em direção ao mundo ocidental.

Agora, o que é curioso sobre este aspecto da aventura de Pítias é que ele não foi de modo algum o primeiro homem civilizado a atravessar o lendário portal do Atlântico. Pelo contrário, essa era uma rota comercial de navios mercantes fenícios desde tempos imemoriais. Estanho da Cornualha e peles e âmbar do Báltico estavam entre as principais cargas entregues aos mercados do leste, para o lucro de Cartago, cuja riqueza provinha de sua posição de intermediária.

Quando Pítias fez sua viagem, as Guerras Púnicas e o Império Romano ainda estavam no futuro. Não que Cartago estivesse em paz; nunca esteve por um período muito longo. Tomada em conjunto, a série de guerras que perpassa a história dos fenícios forma um padrão geográfico que lembra a trilha de um furacão – o fluxo de energia de um ciclone durando quase mil anos e movendo-se irresistivelmente pelo caminho marítimo em meio às terras dos grandes continentes da antiguidade clássica, Ásia, África e Europa. Essa corrente incessante de atividade humana rodopiou através de seu canal sem maré, sempre numa direção principal – uma direção que, em vista do conhecimento de geografia da época, não tinha sentido, porque levava para o oceano vazio. Não estou negando o valor do comércio da costa exterior da Europa, mas o impulso daquela região parece desproporcional ao volume de bens. Durante o período dessa travessia, os fenícios flutuaram na tempestade, ou fizeram parte dela.

Que tipo de povo eram esses fenícios, aprendemos das Escrituras, com outro nome. Foi um fenício, Hirão, rei de Tiro, que enviou seus auxiliares a Salomão quando este subiu ao trono e obteve a incumbência de construir o palácio de Salomão e, depois, o Templo. Hirão forneceu os materiais, transporte e trabalhadores especializados numa estrutura pré-fabricada; troncos de cedro cortados sob medida no Líbano foram levados a Israel e envolvidos em pedras numa pedreira. Ornamentos elaborados de metal foram lavrados segundo especificações, de maneira que a residência real foi levantada e “não se ouviu na casa martelo, nem machado nem instrumento algum de ferro, enquanto ela se edificava”.1 Como pagamento, Hirão recebeu “para sustento da sua casa vinte mil coros de trigo e vinte coros de azeite batido”,2 e ao final um assentamento de “vinte cidades na terra da Galileia”.3 Hirão não gostou das “cidades”, tendo-as aceito sem ver; é uma suposição razoável que ele tenha estendido um pouco além da conta o crédito de Salomão. Quando Salomão enviou seus navios, eles seguiram num comboio fenício.

Obviamente, os fenícios eram a nação industrial e comercial líder de seu tempo. Misteriosamente, não conseguiram montar a estrutura positiva de um império e o centro de sua esfera indefinida de autoridade e influência foi determinado por forças em movimento, numa linha da Síria até a Espanha. Deslocou-se progressivamente passando por Tiro e Sídon até sua última capital, de onde eles desapareceram da lista das nações do mundo. Seu modo de ser histórico estava implícito no caráter de Cartago, sua última e suprema realização, como indicado por sua posição entre o mar e o deserto, um nexo sólido de energia confluente num ponto determinado. Embora a cidade fosse apoiada por um distrito produtor de cereais, a terra arável não mantinha uma relação normal com a população, que se estima que tenha chegado a um milhão de pessoas. Admitindo que haja algum exagero, o número ainda assim impressiona. Cartago era menos uma entidade territorial que um nó amarrado no vento e na água.

Contra as antigas monarquias despóticas do Oriente, os fenícios estabeleceram e mantiveram com sucesso seu lugar especial. Contra os gregos, defenderam-se bastante bem numa longa luta. Os gregos eram claramente seus rivais naturais, habitantes de ilhas fazendo comércio nas mesmas águas e, da mesma maneira, espalhando-se de porto em porto quando tocavam um continente. Nem os fenícios nem os gregos se mostraram capazes de manter suas colônias em estrita confederação; as cidades subsidiárias mudavam de lado sob pressão, e faziam seus próprios tratados quando tinham coragem para tanto. Algum elemento faltava no sistema deles, para amarrar o conjunto.

Há tantas explicações sobre a dominância e o declínio das nações quanto há exemplos. O favor dos deuses ou “as estrelas, desde suas órbitas”4 já foram considerados determinantes. A análise moderna se baseia em fatores temporais, principalmente matérias-primas, alto desenvolvimento econômico, força naval e gênio militar, este último revelado no entendimento da estratégia maior, e numa tropa corajosa e preparada que utiliza disciplinas ou tipos de armamento especiais. O problema é que cada teoria pode ser aplicada apenas a uma época ou a um povo, sem que nada prove a real existência do fator considerado. Experimentemos algumas comparações de acordo com as regras estipuladas.

O conflito entre a Grécia e Cartago pode ser chamado propriamente de guerra comercial. Os dois lados competiam por posições, bens, cargas e clientes. Nesse aspecto, Roma era comparativamente insignificante nesse momento. Possivelmente Roma se tornou um povoado permanente já como um centro local de comércio. (Mommsen defende essa suposição de maneira coerente, baseando-se em evidências internas e históricas.) As origens mescladas da população, a localização ao lado de um rio e suficientemente próxima do mar para ser alcançada por pequenas embarcações, a construção precoce de pontes e o uso de dinheiro indicam comércio; e as relações contratuais eram inextricavelmente entrelaçadas com o sistema político romano. Aparentemente, o fluxo de energia foi suficiente para demandar a acomodação habitual e, consequentemente, fazer com que os romanos percebessem a necessidade equivalente de fortes bases fixas na terra. Mas eles não participaram da corrente principal de comércio mundial durante o período formativo, em que estabeleceram sua estrutura cívica. “Por diversas razões, em momentos diversos, Roma nunca foi, desde sua fundação até hoje, uma cidade industrial… Para o comércio internacional, Roma estava mal localizada… Apenas por cortesia o Tibre poderia ser chamado de corrente navegável… o estuário (era) de pouco valor como porto; e a rapidez da corrente fazia com que a jornada de Roma até o mar fosse uma tarefa laboriosa mesmo para as barcaças fluviais… As imagens familiares de mercadores marítimos engajados no comércio geral, velejando regularmente o Tibre para os dois lados e usando um porto abaixo do Monte Aventino, podem seguramente ser descartadas como produtos da imaginação.” Em seu tratado mais antigo, “Cartago, como seria de se esperar, assegurava insistentemente seu domínio comercial sobre as regiões que controlava,” enquanto Roma “ficava indiferente a considerações que deveriam afetar qualquer comunidade que possa ser chamada de industrial”.5

Comparada à Grécia, Cartago provavelmente estava à frente em organização econômica e conhecimento técnico e possuía um maior número de navios sob um único comando, monopolizando as mais extensas províncias ricas em recursos naturais. A luta entre a Grécia e Cartago já vinha ocorrendo havia séculos e ainda não estava decidida quando Pítias fez sua viagem. Em cinquenta anos, Roma se imiscuiu entre as duas, iniciando o longo, amargo e intermitente esforço que destruiu o poder fenício, arrasou os muros de Cartago e deixou o lugar em ruínas. Os gregos não chegaram a se beneficiar do fim de seu poderoso antagonista; ao contrário, a submissão da Grécia ocorreria em seguida. O determinismo econômico falhou.

O resultado dessa disputa em particular foi tão definitivo que a questão principal se ofuscou. A História é obrigada a recorrer a termos geográficos: Roma e Cartago lutaram pelo domínio do Mediterrâneo. Consequentemente, o cenário de hostilidades é considerado naturalmente variável. Cartago estava situada na costa norte da África, e vivia de sua marinha. Mesmo assim, vemos o general cartaginês Aníbal conduzindo um exército com elefantes contra Roma, numa penosa marcha por sobre os Alpes.

O mais obstinado proponente da interpretação naval dos eventos mundiais, o Almirante Mahan, explicou como a ideia lhe surgiu. Lendo A História de Roma, de Mommsen, ele se recorda de que: “Subitamente me ocorreu… como as coisas poderiam ter sido diferentes se Aníbal tivesse invadido a Itália por mar, como os romanos fizeram tantas vezes com a África, em vez da longa rota por terra.” A partir dessa reflexão, Mahan escreveu A Influência do Poder Naval na História. Ele poderia também ter chamado seu livro de influência da história no poder naval. Sem dúvida, as coisas teriam sido diferentes se tivessem sido diferentes. Particularmente, se o poder naval – uma marinha superior comandando as principais rotas comerciais a partir de bases inexpugnáveis – fosse necessariamente decisivo, Aníbal nunca teria sido arrastado para seu desvio alpino e Cartago teria vencido. Mais propriamente: por esse critério, Cartago deveria ter vencido uma geração antes. Em vez disso, “com a mais forte armada dos mares e com uma experiência naval adquirida ao longo de séculos, os almirantes cartagineses perderam seis das sete batalhas navais que travaram, apesar de os romanos nunca terem possuído um quinquerreme antes dessa ocasião (a Primeira Guerra Púnica), e pouquíssimos romanos terem até então posto os pés a bordo.”6

Esboçado rapidamente, o método pelo qual Roma varreu os mares beira o ridículo. “Enquanto Cartago mantinha uma frota de 120 quinquerremes” (o maior navio de guerra padrão), Roma não tinha nem navios, nem armadores, nem marinheiros. Para compensar a deficiência, os romanos recuperaram uma embarcação púnica encalhada e a usaram como modelo para construir uma frota, enquanto treinavam as tripulações necessárias em terra, usando bancadas estacionárias dotadas de remos. Todos os seus navios foram “construídos, tripulados e comandados por romanos”. Quando feitos ao mar, seus verdes pilotos ficavam “impotentes sempre que uma tempestade surgia”. É difícil conter a sugestão de meu espírito leviano, de que eles ficaram mareados. Ignorantes de manobras navais e sem oportunidade de aprender, os romanos simplesmente transformavam um encontro no mar na coisa mais parecida com uma batalha em terra que conseguiam, e lutavam do seu jeito. Tendo equipado seus barcos com gruas e ganchos, manobravam para ficar ao lado das galeras cartaginesas, prendiam um navio no outro e subiam a bordo. Assim, em seu primeiro combate importante, venceram uma frota cartaginesa que tinha trinta navios a mais que a esquadra romana. Novamente, em Drepana, os romanos estavam aportados quando a frota cartaginesa se aproximou. Caía uma tempestade em terra, o que fazia com que os cartagineses tirassem o vento dos romanos. Indiferentes a essa desvantagem, os romanos atravessaram o curso do inimigo, tomaram setenta navios cartagineses e afundaram outros cinquenta. Entre as vitórias, os romanos geralmente naufragavam suas próprias frotas por inexperiência marítima.7 Depois de cada perda, punham-se a trabalhar e lançavam novos navios em substituição. As despesas pesaram grandemente sobre Roma; Cartago tinha vasta vantagem financeira. Nem assim Roma recorreu ao absolutismo de estado em face da emergência; não houve confisco de meios privados. Quando o tesouro público romano foi exaurido e “os impostos não podiam mais ser elevados”, os cidadãos mais ricos contribuíram para montar uma nova marinha, com a promessa de que seriam reembolsados se vencessem. Venceram.

Os cartagineses ficaram tão desconcertados por esse desempenho inexplicável que chegaram a considerar a ideia de fundar um império em terra, imitando Roma. Os recursos estavam à mão. Mas eles não sabiam como fazer.

Também deve ser observado que, embora a disciplina militar romana fosse estrita e a consideração pelos militares fosse proporcional a sua conduta em campo, um general romano ou seus soldados tinham muito menos medo de punições de seu próprio governo que os comandantes púnicos. Por perder uma campanha, os cartagineses crucificaram um de seus almirantes.

Com relação a bases navais, Roma começou sem nenhuma. Cartago foi a primeira grande nação a ocupar Gibraltar, o que certamente era a chave para o futuro naquele tempo. Obviamente, seria fácil adquirir essa posição de seus habitantes primitivos. Mas, desde então, Gibraltar pertenceu a um império após outro. Sendo a fortaleza pronta para defender a Península Ibérica, voltou ao domínio da Espanha em seu breve período de glória. O enigma é que foi finalmente perdida para a Inglaterra, e isso somente ocorreu depois que a Inglaterra reduziu a Espanha a um papel secundário por meio de operações navais. A derrota da Invencível Armada é normalmente explicada como resultado de gerenciamento inadequado, equipamento ruim e, sobretudo, mau tempo. Mas é difícil de acreditar que faltassem marinheiros à Espanha, da raça que conquistou todo o oceano ocidental e quase conseguiu mantê-lo. A frota inglesa era improvisada, em grande parte composta de piratas; havia falta de provisões e de pólvora. Finalmente, quando a Armada foi dispersa e destruída, os navios ingleses não estavam em doca seca; tiveram de resistir à mesma tempestade. A Espanha sem dúvida teve poder naval, enquanto ele durou. A menos que se concorde com o absurdo de que o poder naval não consiste em navios, marinheiros, portos e oportunidade comercial, ou seja, todos os seus atributos tangíveis, o fato é que o poder naval fracassou.

Por outro lado, se o segredo do desenvolvimento e longevidade do domínio romano está na aptidão militar, o regime conquistador de Napoleão deveria ter deitado raízes e florescido pela mesma duração. Por uma série de ações que figuram entre os clássicos da arte da guerra, Napoleão colocou todo o continente europeu sob sua influência. Seus exércitos invasores foram tacitamente bem recebidos por parte influente dos povos conquistados, que já estavam descontentes com o velho regime e imaginavam uma nova ordem. Reis caíram como pinos de boliche; a organização de caserna foi exaltada como o instrumento de unidade que prenunciaria um milênio de eficiência; a América recebeu um sortimento incongruente de exilados. Napoleão surfou na crista da onda do futuro. Entretanto, a aparência resplandecente de um Império erigido sobre baionetas esfacelou-se em nada depois de uma grande derrota na longínqua Rússia. Roma perdeu mais de uma grande batalha e reviveu com renovado vigor. O desastre de Napoleão em Moscou, com as consequências que teve, é atribuído ao frio e à neve. Mas os russos não passaram o inverno na Riviera. Os meios militares fracassaram.

Mais uma vez, se o domínio romano se originou de sua ordem social antecedente, os cidadãos de Roma, fossem aristocratas ou plebeus, orgulhavam-se de serem simples fazendeiros, alternando entre a espada e a pá. Voltando para casa depois das guerras, Cincinato não pediu nada além de voltar a arar sua terra. A mais honrosa recompensa que pôde ser imaginada por Horácio, aquele que defendeu a ponte,8 foi do mesmo tipo:

            They gave him of the corn-land,
            That was of public right,
            As much as two strong oxen
            Could plough from morn till night.9

Sem dúvida, estas são versões românticas, se não forem puro mito. O que expressam é a tradição, com uma origem real por trás. A descrição, maquiando inclusive uma cruel fundação na escravidão, se adequa igualmente à cultura agrária defendida pela Confederação Sulista.10 Infelizmente, essas são precisamente as razões aduzidas para indicar porque o Sul não teve chance, em nossa Guerra Civil, contra o Norte mecanizado e mercantil, reforçado por suas empresas de navegação.

Acredita-se que Cartago enfraqueceu sua virtude marcial devido ao uso de tropas estrangeiras. Em seguida, Roma governou por séculos enquanto as famosas legiões eram recrutadas em parte das mesmas fontes.

Na estratégia principal, Cartago tinha uma percepção precisa dos pontos vitais. Ao perder a Sicília, foi posta na defensiva no Mediterrâneo oriental, espremida entre o poder naval grego e o poder terreno romano. A jogada de Aníbal através da Espanha foi um ataque evidentemente lógico pelo flanco, e não um expediente desesperado. Ele invadiu o interior em busca de soldados e suprimentos, inclusive prata, que era moeda sonante. Além das montanhas, ele esperava outra circunstância compensadora, mas foi frustrado. Muitas das tribos ou cidades do norte da Itália eram aliadas de Roma, a quem eram mais ou menos subordinadas. Aníbal presumiu que elas se uniriam aos invasores para se livrarem do jugo romano. Em vez disso, permaneceram fiéis a Roma, pelo menos tacitamente. Porém, quando Cipião levou a guerra à África, os mais proveitosos auxiliares locais de Cartago, os Númidas, bandearam-se para os romanos e foram vitoriosos. Seja o que for que envolva a construção de um império, o comportamento dos povos tributários e a confiabilidade dos aliados deve ser parte dela; o ponto crucial é aquilo que os induz a escolher um lado. A proximidade não é suficiente. As explicações convencionais são meramente declarações superficiais do que aconteceu.

Como evento, o que ocorreu quando Cartago foi destruída foi de importância imensa e permanente. Embora a consequência não tenha podido ser apreendida de uma vez, isso prognosticou a futura ascensão da Europa e o declínio, no equilíbrio do poder mundial, do hemisfério oriental. Uma pesquisa racional deveria investigar a natureza do processo que foi conduzido até então pelos fenícios e que só pôde continuar a ser realizado por Roma; e o surgimento aparentemente acidental de Pítias, um grego, como aquele que abriu a porta.

A resposta fácil, por que Pítias é lembrado e seus predecessores permaneceram anônimos, é que ele escreveu uma narrativa de sua viagem. Como os fenícios eram alfabetizados, isso nos leva a perguntar por que não o fizeram muito antes, a partir de sua experiência tão maior.

Não o fizeram porque pretendiam preservar um completo monopólio do Atlântico. Não era uma questão de altas tarifas, ou nações favorecidas, ou um bloqueio em tempo de guerra. Com o estreito sob seu domínio, nenhuma embarcação podia passar exceto as deles, na paz ou na guerra, em qualquer condição. Cartago apostava sua existência nessa política de exclusão. Ocasionalmente, sem dúvida algum pirata temerário furava o bloqueio. Mas, se o fizesse, poderia não voltar nunca. Onde quer que ele aportasse no litoral proibido, arriscava-se a encontrar os fenícios, situação em que o navio não autorizado estava sujeito a ser apreendido e a tripulação a ser morta. Nenhuma palavra podia retornar. Não era à toa que rumores preenchiam aquelas regiões remotas com terrores vagos. Supõe-se que Pítias conseguiu fazer sua exploração em segurança e escrever seu relato enquanto Cartago estava sendo atacada por Siracusa, deixando os estreitos insuficientemente vigiados. Se foi assim, a vigilância foi retomada em pouco tempo, e mantida até o fim. Na corrente principal, o fluxo de energia enfim esmagou os fenícios na estreita eclusa que eles haviam reservado para seu exclusivo benefício. Era forte demais e os fez em pedaços.

No sentido em que os engenheiros falam de carga hidráulica, os romanos representaram uma carga de forças canalizadas. Nem por sua localização nem por seu progresso material, nenhuma pista econômica explica sua função. E, se fosse verdade hoje que mesmo nossa história mais recente não serve como instrução porque vivemos num mundo que muda e temos de lidar com condições inteiramente novas, então isso sempre teria sido verdade. Não é verdade, nem nunca foi. O que o passado demonstra, com provas avassaladoras, é que os imponderáveis têm mais peso que qualquer artigo material na balança do esforço humano. Nações não são poderosas porque possuem terras extensas, portos seguros, grandes marinhas, imensos exércitos, fortificações, depósitos, dinheiro e crédito. Elas adquirem essas vantagens porque são poderosas, tendo desenvolvido sobre princípios corretos a estrutura política que permite que o fluxo de energia tome seu curso adequado. A questão é como; porque o gerador e as possíveis linhas de transmissão e saídas disponíveis tanto para o benefício como para a destruição são sempre os mesmos. A única diferença entre o passado e o presente com respeito à energia é quantitativa, um maior potencial disponível num maior fluxo, o que faz com que uma conexão errada seja mais terrível em seus efeitos por uma dada proporção, tornando-se aparente literalmente numa explosão mundial. Os princípios de conversão de energia e do mecanismo adequado para o uso humano não podem mudar; são universais.

Se Roma, no devido tempo, forçou as travas do Atlântico, havia uma razão. Mesmo assim, foi um grego que atravessou sozinho. Além disso, o caráter pessoal de Pítias é tão relevante que a ficção dificilmente poderia inventá-lo. Ele era um cientista e um aventureiro mercante. Seu livro se perdeu; poucos excertos e referências foram preservados na obra de geógrafos posteriores. Eles o citam com desprezo; não acreditam nele, uma vez que suas observações contradiziam a teoria ortodoxa sobre o clima e as condições gerais das latitudes setentrionais. Vilhjalmur Stefansson11 reabilitou mais tarde a reputação de Pítias no quesito precisão. Embora seus críticos admitissem que Pítias deu contribuições valiosas à ciência exata da astronomia, aplicada à navegação, ele foi acusado de mentir sobre o que viu com seus próprios olhos, por homens que nunca estiveram lá. O que deve ser ressaltado é a forma de oposição que ele foi obrigado a enfrentar, banimento político enquanto estava vivo e censura acadêmica após sua morte. Teorias, quando adquirem credibilidade, tornam-se direitos adquiridos. O prestígio e o sustento de escolas e professores estão vinculados a elas; eles tendem a doutrinas fechadas, não a se abrir a informações novas.

Pítias abriu o caminho, por onde os fenícios, com toda sua astúcia e audácia e suas prioridades factuais, não o fizeram; porque era dotado da rara combinação de curiosidade desinteressada, intelecto especulativo e empreendedorismo ativo, qualidades que o impeliram a escorregar por uma barreira oficial de extremo rigor para experimentar os riscos do desconhecido. Pítias figura entre os descobridores notáveis, um modelo de mente aberta. Ele não podia saber que estava olhando para a América.

  1. O Ciclo de Energia no Mundo Clássico
  2. O Poder das Ideias
  3. Roma Descobre a Estrutura Política
  4. Roma como uma Demonstração da Natureza do Governo
  5. A Sociedade do Status e a Sociedade do Contrato
  6. Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo
  7. O Nobre Selvagem
  8. A Falácia do Anarquismo
  9. A Função do Governo
  10. A Economia da Sociedade Livre
  11. O Significado da Magna Carta
  12. A Estrutura dos Estados Unidos
  13. Escravidão, o Defeito na Estrutura
  14. A Virgem e o Dínamo
  15. As Emendas Fatais
  16. As Corporações e a Lei do Status
  17. A Ficção da Propriedade Pública
  18. Por que Dinheiro Real É Indispensável
  19. Crédito e Depressões
  20. O Humanitário com a Guilhotina
  21. Nosso Sistema Educacional Niponizado
  22. O Circuito de Energia em Tempos de Guerra
  23. A Economia Dinâmica do Futuro


1 Reis I, 6:7 (N. do T.)
2 Reis I, 5:11 (N. do T.)
3 Reis I, 9:11 (N. do T.)
4 Juízes, 5:20 (N. do T.)
5 CAMBRIDGE ANCIENT HISTORY: The Early Republic. Hugh Last. Macmillan. (N. da A.)
6 CAMBRIDGE ANCIENT HISTORY: The First Punic War. Tenney Frank. Macmillan. (N. da A.)
7 Em 255 AC, uma frota romana recém-construída derrotou a principal frota púnica “com facilidade”, mas, na viagem de volta para casa, encontrou uma tempestade perto da Sicília. De 364 navios, apenas 80 se salvaram. Calcula-se que mais de 90.000 pessoas pereceram, na maior parte homens livres; um desastre maior que a perda da Invencível Armada pela Espanha. Foi a mais terrível calamidade marítima conhecida até então e esse recorde se mantém até hoje. (N. da A.)
8 Públio Horácio Cocles, militar romano que, segundo a lenda, impediu sozinho que um exército inimigo invadisse Roma pela Ponte Sublício. (N. do T.)
9 "Deram a ele milharais que eram de direito público. De tal tamanho que dois bois fortes levariam da manhã até a noite para arar." Do poema Horatius, escrito por Lord Thomas Babington Macaulay em 1842. (N. do T.)
10 Analisando friamente, a pequena nobreza rural romana parece ter sido composta também por agiotas, ou muitos deles criariam problemas sem fim, emprestando por hipotecas e escravizando credores que não podiam pagar. Assim também os agricultores do Sul eram empresários rurais em vez de reais cultivadores do solo. Nem um financista nem um avarento parecem ser soldados ideais; mas não se pode negar que aqueles foram excelentes combatentes. Os detalhes são duplamente desconcertantes, uma vez que os resultados não foram os mesmos; Roma triunfou, o Sul foi derrotado. (N. da A.)
11 ULTIMA THULE. Vilhjalmur Stefansson. Macmillan. (N. da A.)

O Deus da Máquina, de Isabel Paterson

Estou publicando O Deus da Máquina, de Isabel Paterson, um dos três clássicos das Libertárias de 1943. (Os outros dois são A Descoberta da Liberdade, de Rose Wilder Lane, e A Nascente, de Ayn Rand.) 

Isabel Paterson faz um panorama da história da liberdade, começando com as Guerras Púnicas e a estrutura da República Romana, passando pela Idade Média e o papel da Igreja, pela a Magna Carta e pela história dos Estados Unidos. Ataca o fascismo, o nazismo e o comunismo como variantes do mesmo mal. Afirma que a liberdade individual só é possível se houver liberdade política. Critica o alistamento militar, o planejamento central da economia, subsídios governamentais para empresas, o papel-moeda e a educação governamental obrigatória.

Não é um livro fácil, por causa das muitas metáforas técnicas, em que ela compara aspectos da sociedade com conceitos de engenharia mecânica ou civil, por exemplo. Mesmo assim, a leitura é agradável por causa da riqueza dos temas e da eloquência com que Isabel Paterson se expressa.

Estou traduzindo de acordo com minha disponibilidade. Todos os erros de tradução e digitação são de minha responsabilidade.




O Deus da Máquina
Isabel Paterson

Desejo reconhecer uma inestimável dívida para com o Professor Thomas T. Read, E.M., Ph.D., por seus comentários críticos precisos e fundamentados sobre o manuscrito deste livro, que foram extremamente úteis para tornar mais clara a apresentação do tema. Isso não implica que o Professor Read necessariamente concorde com todas ou com alguma das ideias e conclusões expressas, pelas quais a autora é responsável.

sábado, 20 de abril de 2013

Profissão de Fé, de Rose Wilder Lane


Se procurarmos na Internet por textos de Rose Wilder Lane, vamos saber que ela escreveu, em 1936, um artigo chamado Credo para a revista The Saturday Evening Post. É uma defesa entusiasmada da liberdade individual contra todas as formas de opressão. Esse artigo foi revisado e ampliado por ela em 1944 e publicado em forma de livro, com o título Give Me Liberty. Podemos encontrar algumas cópias do texto, em formatos diferentes, com os dois títulos. Porém, o texto sempre é o de 1944.

Intrigado com isso, entrei em contato com a revista. The Saturday Evening Post foi fundada em 1728, por Benjamin Franklin, e continua existindo. Responderam que o artigo foi publicado na edição de 7 de maio de 1936, mas não dariam mais informações. Procurei essa edição em sebos e achei um que tinha, no Alabama. Enviaram um exemplar em perfeito estado de conservação; uma revista grande, de 112 páginas pouco menores que uma folha A3, cheia de anúncios de carros (Chevrolet, Buick, Pontiac), refrigeradores, rádios (Philco) e outros produtos (Listerine, Aspirina). E com o texto original de Credo, cuja tradução apresento, com notas indicando as diferenças para a versão de 1944. Em português, chamei Credo de Profissão de Fé, e Give Me Liberty de Quero Liberdade.

O texto não mudou muito. Existem pequenas melhorias estilísticas; algumas ambiguidades foram eliminadas e algumas ideias foram expressas de maneira mais completa. O texto foi enriquecido com uma comparação entre os agricultores da Rússia transcaucasiana, onde Rose visitou uma aldeia comunista, e os colonos de Illinois, uma bela declaração baseada na introdução da Declaração de Independência dos Estados Unidos e provocações a Marx. Algumas narrativas são mais detalhadas, especialmente a da caça aos trustes por William Jennings Bryan.

Há diversas histórias novas em Quero Liberdade que eram apenas sugeridas, ou nem isso, em Profissão de Fé. Por exemplo, aquela em que o carro de Rose quebra na Itália, ou a burocracia na compra de um novelo de lã em Paris, por causa de um decreto de Napoleão. A mais marcante é a da batida policial que Rose acompanhou na Hungria.

Um ponto importante é que, em Profissão de Fé, Rose afirma que a liberdade individual é uma ideia que nunca ocorreu a nenhuma civilização antes do surgimento dos Estados Unidos. Em Quero Liberdade, ela reconhece que a ideia existia como princípio religioso dos judeus, cristãos e muçulmanos. Mas ressalta que nunca havia sido um princípio político.

Mais relevante é uma pequena troca de palavras. Em Profissão de Fé, ela se refere algumas vezes à democracia. Em Quero Liberdade, ela sempre diz liberdade individual. Nesse intervalo de oito anos, Rose percebeu que a democracia, sendo o governo da maioria, poderia não ser garantia suficiente para as minorias e que a menor minoria que existe é o indivíduo.

Existem dois trechos de Profissão de Fé que foram suprimidos em Quero Liberdade. São aqueles em que Rose elogiava alguns serviços públicos dos Estados Unidos, especialmente escolas públicas.

O último capítulo de Profissão de Fé, O Hiato que se Fecha, foi bastante ampliado. Ficamos sabendo muito mais sobre a vida da comunidade rural dos Montes Ozark, próxima à fazenda onde Rose morou por longo tempo.

E o último capítulo de Quero Liberdade é completamente novo, conclamando os americanos a deixarem de lado o conformismo e o pessimismo e passarem para a ação, para defenderem sua liberdade ameaçada.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Credo, by Rose Wilder Lane

CREDO
By Rose Wilder Lane
March 7th, 1936

Sixteen years ago I was a Communist. My Bolshevik friends of those days are scattered; some are bourgeois, some are dead, and, by chance, I have not met the present American chiefs of the Third International. They would repudiate me even as a renegade comrade, for I was never a member of The Party. But it was an accident that I was not. I had a cold.

Jack Reed was organizing the Communist Party in America. I forget the precise locale of that historic scene, but I was there. Somewhere in the slums of New York, a dirty stairway went up from the filthy sidewalk. Haggard urchins at the doorway offered Communist publications for sale. The usual gaunt women were asking for help for someone’s legal defense. “A dime, comrade? A nickel? Every penny counts now.” We went up through the sluggish jostling on the stairs to the usual dingy room with the rented chairs, the slightly crooked posters, the smell of poverty and the hungry, lighted faces.

All those meetings were the same, that winter. Their illumination seemed to come, not from the grudging bulbs, but from the faces. Our police were shouting that Communists were foreigners, and it was true that most of the faces were foreign, and many of the voices. But these people had a vision that seemed to me the American dream. They had followed it to America and they were still following it—a dream of a new world of freedom, justice and equality.

They had escaped from oppression in Europe, to exist in New York’s slums, to work endless hours in sweatshops and wearily study English at night. They were hungry and exhausted and exploited by their own people in this strange land, and to their dream of a better world which they did not hope to see, they gave the dimes they needed for food.

I remember the room as a small room, with, perhaps, sixty people in it. There was an almost unbearable sense of expectancy, and a sense of danger. The meeting had not begun. A few men were talking urgently, intensely, to Jack Reed. He turned from them and said to my escort, “Are you with us?”

He was eager. But the question itself was a challenge. This was a risky enterprise. Jack Reed, as every Communist knows, did not leave his own country later; he escaped from it. Federal agents, raiding police, might break in upon us at that moment. We knew this, and because I shared the Communist dream I was prepared to face danger and also to submit to the rigorous party discipline. But the man beside me began a vague discussion of tactics; evaded; hesitated; finally, with a disarming smile, doubted whether he should take the risks, his safety was so valuable to the cause. Jack Reed turned on his heel, saying, “Oh, go to hell, you damn coward!”

This brief scene had shown me my unimportance; I represented no group, carried no weight in that complex of theories. I was a useless individual, just then furiously in sympathy with Jack Reed’s words and dazed by a headachy cold. I went home. The cold proved to be influenza, and before I fully recovered I was in Europe. By so narrow a margin I was not a member of the party. Nevertheless, I was at heart a Communist.

Many regard Communism, as I did, as an extension of democracy. In this view, the picture is one of progressive steps to freedom. The first step was the Reformation; that won freedom of conscience. The second was the political revolution; our American Revolution against England was part of that. This second step won for all western peoples some degree of political freedom. Liberals have continued to increase that freedom by transferring increasing political power to the people. American Liberals gained, for example, equal suffrage, popular election of nearly all public officials, initiative, referendum, recall. But now, it was maintained, we confront economic tyranny. Stating this in its simplest terms, no man is free whose very livelihood depends upon another man’s will. The final revolution, then, must capture economic control.


Capital and Labor

I now see a dominant fallacy in that picture, and I shall point it out. But let it pass for the moment. In this view there is another picture. This:

Since the progress of science and invention enables us to produce more goods than we can consume, no one should lack anything. Yet we see, on the one hand, great wealth in the hands of a few who, owning and controlling all means of production, own all the goods produced; on the other hand, we see multitudes always relatively poor, lacking goods they should enjoy.

Who owns this great wealth? The Capitalist. What creates wealth? Labor. How does the Capitalist get it? He collects a profit on all goods produced. Does the Capitalist produce anything? No, Labor produces everything. Then, if organized workers could compel capitalists to pay in wages the full value of their labor, they could buy all the goods produced? No, because the Capitalist adds and collects his profit.

From this point of view, it is clear that the profit system causes the injustice we see. We must eliminate profit system—that is to say, we must eliminate the Capitalist. We will take his current profits, distribute his accumulated wealth, and ourselves administer his former affairs. The workers who produce the goods will then enjoy all the goods, there will no longer be any economic inequality, and we shall have such general prosperity as the world has never known. When the Capitalist is gone, who will manage production? The State. And what is the State? The State is the mass of toiling workers.

It was at this point that the first doubt pierced my Communist faith. I was in Transcaucasian Russia at the time, drinking tea with cherry preserves in it and trying to hold a lump of sugar between my teeth while I did so. It’s difficult. My plump Russian hostess and her placid, golden-bearded husband beamed at me, and a number of round-cheeked children stared in wonder at the American. Their house was a century old, and charming. Bright icons hung on thick walls whiter than snow; featherbeds were spread in the bed niche of the large stove, which was also whitewashed. Almost everything seemed embroidered; my host’s collar and his wife’s gown were works of art. There was an American sewing machine, and the samovar was a proud samovar.

The village was Communist, of course; it had always been Communist. The sole source of wealth was land, and it had never occurred to these villagers that land could be privately owned. Each family tilled an allotted acreage. When, in the course of natural events, the size of families altered so that the division of land was unsatisfactory, all the villagers assembled in town meeting and wrangled out a new division. This happened every ten years or so, depending on marriages, births and deaths.

Crops had been good that year; the cattle were fat, the granaries overflowed, and all the open house lofts held piles of red-gold pumpkins. Of course, there was not a poor man in the town. No Communist could have desired better proof of Communism’s practical worth than the prosperous well-being of those villagers. The Bolsheviks had then been nearly four years in power, and the village taxes had not been increased, nor any more young men taken for the army than during the Czar’s regime. Tiflis, the nearest city, was reviving under NEP, the Soviet’s New Economic Policy of temporary retreat toward capitalism.

My host astounded me by the force with which he said he did not like the new government. He repeated that he did not like it. “No! No!”

His complaint was government interference with village affairs. He protested against the growing bureaucracy that was taking too many men from productive work. He predicted chaos and suffering from the centralizing of economic power in Moscow. Those were not his words, but that was what he meant.

“It is too big,” he said. “Too big. And at the top, too small. It will not work. In Moscow there are only men, and man is not God. A man has only a man’s head, and one hundred heads together do not make one great head. Only God can know Russia.”

A westerner among Russians often suddenly feels that they are all slightly mad. At other times, their mysticism seems plain common sense. It is quite true that many heads do not make one great head; in fact, they make a session of Congress. What, then, I asked myself dizzily, is the State? The Communist State—does it exist? Can it exist?

I wonder now whether that ancestral home, that village, have yet been wiped from the soil of Russia to make way for a communal farm, worked in three daily eight-hour shifts, plowed by tractors and harvested by combines, illuminated at night by great arclights. Do my host and his wife eat, perhaps, in a communal dining hall and sleep in communal barracks?

Certainly their standard of living was primitive. They had no electric lights, no plumbing. They bathed, I supposed, only once a week, in the village bathhouse, and perhaps it wasn’t sanitary. How many germs were in their drinking water, nobody knew. Their windows were not screened. Their dusty roads must have been mud in rainy weather. They had no automobiles, nor even horses; only ox wagons. Possibly their standard of living has already been raised. It may be that in time every tooth in Russia will be brushed thrice daily and every child fed spinach. But if this is done for the people in former Russia, it will not be done by them, but to them, and what will do it? The State?


The Touchstone of Actuality

The picture of the economic revolution as the final step to freedom was false as soon as I asked myself that question. For, in practical fact, the State, the Government, cannot exist. They are abstract concepts, useful, perhaps, in their place, as the theory of minus numbers is useful in mathematics. In actual living experience, however, it is impossible to subtract anything from nothing; and when a purse is empty, it is empty; it cannot contain a minus ten dollars. On this same plane of actuality, no state, no government, exists. What does, in fact, exist is a man, or a few men, in power over many men.

The Reformation reduced the power of priests, so that common men were free to think as they pleased. Political revolution reduced the power of the rulers, so that common men were more free to do as they pleased. But economic revolution concentrated economic power in the hands of the rulers, so that the livelihood, the lives, of multitudes of men were once more at their rulers’ disposal.


Government by Economics

When I considered facts, I could not see how it could be otherwise. The Communist village was possible because there a few men, face to face, struggled each for his own self-interest, and arrived at a reasonably satisfactory balance. Every family does that. But the government of men in hundreds of millions is another thing. Time and space prevent a personal conflict of so many wills, each in personal encounter with all the others arriving at a common decision. The government of multitudes of men must be in the hands of a few men.

Americans blamed Lenin because he did not establish a republic. But had he done so, the fact that a few men held power would not have been changed. Representative government cannot express the will of the mass of the people; the people is a fiction, like the State. You cannot get a will of the mass, even among a dozen persons who all want to go on a picnic. The only human mass with a common will is a mob, and that will is a temporary insanity. In actual fact, the population of a country is a multitude of diverse human beings with an infinite variety of desires and fluctuating wills.

In a republic a majority of the population from time to time directs, checks or changes its rulers. From time to time, an action of a majority can alter the methods by which men get power, the extent of that power or the terms upon which they are allowed to keep it. But a majority does not govern; it acts as a check on its governors. Any government of multitudes of men, anywhere, at any time, must be a man or a few men in power. There is no way to escape from that fact.

A republic is not possible in the Soviet Union because the aim of its rulers is an economic aim. Economic power differs from political power. Politics is a matter of broad principles, which, once adopted, may stand unchanged indefinitely; such principles as, for example, that government derives its just powers from the consent of the governed. From such principles are drawn general rules; as, no taxation without representation. Such rules are embodied in law governing action; as, Congress has the sole right to levy taxes, Congress alone may spend public money. This most concrete application of political principles does not touch intimate details of the individual’s life.

Economics, however, is concerned, not with abstract principles and general laws, but with material things; it deals with actual carloads of coal, yields of grain, output of factories. Economic power in action is subject to an infinite number of immediate unpredictable crises affecting material things; it is subject to storm, flood, earthquake; to weather and pestilence; to fashion, and plant diseases, and insects, and the wearing out of machinery. And economics enters into the minute detail of each individual’s existence—into his eating, drinking, working, playing and personal habits.

The whole economic circulation system of a modern country is affected by the number of its population who wash behind the ears. This somewhat private matter affects the import or production of vegetable oils; the use of fat from farm animals; the manufacture of chemicals, perfumes, colors; the building or closing of soap factories, with attendant changes in employment in these factories and in the building trades and heavy industries, and in their demand for raw materials and for labor, and freight-car loadings, and use of fuel, with its effects on mines and oil fields. All these economic factors and many more change with changing habits of personal cleanliness. A Hollywood diet or a passion for jigsaw puzzles has prodigious results in the most unexpected, remote places. Whether the hungry child eats bread or candy is a matter of international economic importance.

Centralized economic control over multitudes of human beings must, therefore, be continuous and, perhaps, superhumanly flexible, and it must be autocratic. It must be government by a swift flow of edicts, and it will be compelled to use compulsion. In the effort to succeed, it must become such minute and rigorous supervision of details of individual life as no people will accept without compulsion. It cannot be subject to the intermittent checks, reversals and removals of men in power that majorities cause in republics.

In Russia, then, our hope was realized; the economic revolution had occurred. The Communist Party had captured power with the cry, “All power to the councils!”

Russia’s embryo capitalism was in reality vanquished, and the people controlled the national wealth. That is, in actual fact, a sincere and extremely able man was in power, devoted to the stupendous task of forcing multitudes of human beings into a new economic order, for what this man and his followers believed to be the ultimate material welfare of those multitudes.

And what I saw was not an extension of democracy, but the establishment of tyranny on a new, widely extended and deeper base.

The historical novelty of the Soviet Government was its motive. Other governments have existed to keep peace among their citizens, or to amass money from them, or to use them in trade and war for the renown and glory of the men governing. But the Soviet Government exists to do good to its people, whether they like it or not.

And I felt that, of all the tyrannies to which men have been subject, that tyranny would be the most ruthless and the most agonizing to bear. There is some refuge for freedom under other tyrannies, since they are less thorough and not so remorselessly armed with righteousness. But from benevolence in economic power I could see no refuge whatever.

Every report I have since heard from the Soviet Union has confirmed this opinion, and I listen only to reports from its friends, for I believe that Communists best understand what is happening there. For eighteen years the men who rule that country have toiled prodigiously to create precisely the society we dreamed of; a society in which insecurity, poverty, economic inequality, shall be impossible. To that end they have destroyed personal freedom; freedom of movement, of choice of work, freedom of self-expression in ways of life, freedom of speech, freedom of conscience.


The Rule of the Iron Hand

Given their aim, I do not see how they could have done otherwise. Producing food from the earth and the sea, making goods from assembled raw materials, and their storing, exchanging, transporting, distributing and consuming by vast multitudes of human beings, are activities so intricately inter-related and interdependent that it is not possible efficiently to control part of them without controlling of the whole. No man can so control multitudes of men without compulsion, and that compulsion must increase.

It must increase because human beings are naturally diverse. It is the nature of men to do the same thing in different ways, to waste time and energy in altering the shape of things, to experiment, invent, improvise, make mistakes, depart from the past in an infinite variety of directions. Plants and animals repeat routine, but men who are not restrained will go into the future like explorers into a new country, and great numbers of explorers accomplish nothing and many are lost.

Economic compulsion is, therefore, constantly threatened by human willfulness; it must constantly overcome that willfulness, crush all impulses of egotism and independence, destroy variety of human desires and behavior. Centralized economic power is under a necessity, either to fail or to tend to become absolute power in every province of human life.

“It doesn’t matter what happens to individuals,” the Communists say. “Individuals don’t count. The only thing that matters is the collectivist state.”

The Soviet hope of economic equality rests now on the death of all men and women who are individuals. A new generation, they tell me, has already been so schooled and shaped that a human mass is actually being created; millions of young men and women do, in veritable fact, have the psychology of the bee swarm, the ant hill.

This does not seem so incredible to me as it once did. There may yet be a human bee swarm in Russia. It would not be unique in history; there was Sparta.

I came out of the Soviet Union no longer a Communist, because I believed in personal freedom. Like all Americans, I took for granted the individual liberty to which I had been born. It seemed as necessary as the air I breathed; it seemed the natural element in which human beings lived. The thought that I might lose it had never remotely occurred to me. And I could not conceive that multitudes of human beings would ever willingly live without it.


The Tinge of Medievalism

It happened that I spent many years in the countries of Europe and Western Asia, so that at last I learned something, not only of the words that various peoples speak, but of the real meanings of those words. Everywhere I encountered the living facts of medieval caste and of the static medieval social order. I saw them still resisting, and vitally resisting, democracy and the industrial revolution.

It was impossible for me to know France without, I thought, knowing that the French demand order, discipline, the restraint of traditional forms, and that the fierce French democracy is less a cry for individual liberty than an insistence that no class of citizens shall unduly exploit another class.

I thought I saw in Germany and in Austria scattered and leaderless sheep running this way and that, longing for the lost security of the flock and the shepherd.

Doggedly resisting, step by step, I was finally compelled to admit to my Italian friends that I had seen the spirit of Italy revive under Mussolini. And it seemed to me that this revival was based on a separation of democracy from the industrial revolution that had accompanied the rise of democracy, and that in Italy, as in Russia, an essentially medieval, planned and controlled economy was taking over the fruits of the industrial revolution without yielding to the principle of the rights of the individual.

“Why will you talk about the rights of the individual?” Italians said. “Individuals don’t matter. As individuals we have no importance. I will die, you will die, millions will live and die, but Italy will not die. Italy is important. Nothing matters but Italy.”

I began at last to question the value of this personal freedom which had seemed so inherently right. I saw how rare it is. From Brittany to Basra lay the ruins of brilliant civilizations that never glimpsed the idea that all men are born free. In sixty centuries of human history that idea did not appear. It has been a familiar idea to only a few men on earth, for little more than two centuries. Asia did not know it, Africa did not know it, Europe had never wholly accepted it, and was now rejecting it.


Sweet Land of Liberty

What is individual liberty?

When I asked myself, “Am I truly free?” of course, I saw at once that I am not. The most that can be said is that, being American, I have a relative freedom.

Americans have had more freedom of thought, of choice, and of movement than other peoples have ever had. We inherited no ideas of caste to restrict our range of desires and ambition to the class in which we were born. We had no bureaucracy to watch our every move, to search our cars and measure the gasoline in the tanks when we entered and left American cities, to make a record of friends who called at our homes and the hours at which they arrived and left.

We are not obliged, as Continental Europeans are, to carry at all times a police card, renewed at intervals, bearing our pictures, properly stamped, and stating our names, ages, addresses, parentage, religion and occupation. American workers are not classified; they do not carry police time cards on which employers record each day they work; their places of amusement are not subject to raids of policemen inspecting those cards and acting on the assumption that any workingman is a thief whose card shows he had not worked recently. In America, commercial decrees a hundred years old do not hamper every clerk and customer, as they do in France, so that an extra half hour is consumed in every department-store purchase. There is no universal military service in America, to take something from each young man's life.

An American may look at the whole world around him and take what he wants from it, if he can. Only criminal law and his own character, abilities and luck restrain him.

But anyone whose freedom has been, as mine has always been and today most urgently is, freedom to earn a living, if possible, knows that that independence is another name for slavery without security. This is a slavery in which one is one’s own master, bearing a double burden of toil and of responsibility. The American pioneers phrased this clearly and bluntly. They said, “Root, hog, or die.”

There can be no third alternative for the shoat let out of the pen, to go where he pleases and do what he likes. Individual liberty is individual responsibility. Whoever makes decisions is responsible for results. When common men were slaves and serfs, they obeyed and they were fed. Free men paid for their freedom by leaving that security.

The question is whether personal freedom is worth the terrible effort, the never-lifted burden and the risks of self-reliance.

For each of us the answer is a personal one. But the final answer cannot be personal, for individual liberty cannot long exist, except among multitudes of individuals who choose it and are willing to pay for it. Multitudes of human beings will not do this unless their freedom is worth more than it costs, not only in value to their own souls but also in terms of the general welfare and the future of their country.

The test of the worth of personal freedom, then, can only be practical results in a country whose institutions and ways of life and of thought have grown from individualism. The only such country is the United States of America.

Here, on a new continent, people with no common tradition founded this republic on the rights of the individual. This country was the only country in the western world whose territory was settled and whose culture is still dominated by those northwestern European races from whom the idea of universal individual liberty came into the world's history.


The Pioneer Spirit

When one thinks of it, that’s an odd fact. Why did half this continent become American? Spaniards were in Missouri before Raleigh sailed from England. French settlements were old in Illinois, French mines in Missouri were shipping lead down the Mississippi, French trading posts were solidly built in Arkansas, half a century before farmers fired on the British at Lexington.

Why did Americans, spreading westward, not find a populated country, a vigorous colony to protest in France against the sale of Louisiana?

I think it significant that Americans were the only settlers who built their houses far apart, each on his own land. America is the only country I have seen where farmers do not live today in close, safe village groups. It is the only country I know where each person does not feel an essential solidarity with a social group. The first Americans came from such groups in Europe, but they came because they were individuals rebelling against groups. Each in his own way built his own house at a distance from others in the American wilderness. This is individualism.

There was no plan that America should cover half this continent. The thought of New York and Washington lagged far behind that surge. It was the released energies of individuals that poured westward at a speed never imagined, sweeping away settlements of more cohesive peoples and reaching the Pacific in the time that Jefferson thought it would take to settle west of the Alleghanies.

I have no illusions about the pioneers. My own people for eight generations were American pioneers, and when, as a child, I remembered too proudly an ancestry older than Plymouth, my mother would remind me of a great-great-uncle, jailed for stealing a cow.

The pioneers were by no means the best of Europe; in general they were trouble makers of the lower classes, and Europe was glad to be rid of them. They brought no great amount of intelligence or culture. Their principal desire was to do as they pleased, and they were no idealists. When they could not pay their debts, they left the town between two days. When their manners, their personal habits or their loud opinions offended the gently bred, they remarked, “It’s a free country, ain’t it?” A frequent phrase of theirs was, “Free and independent.” They also said, “I’ll try anything once,” and “Sure, I’ll take a chance!”

They were riotous speculators; they gambled in land, in furs, in lumber and canals and settlements. They were town-lot salesmen for towns that didn’t exist. They were ignorant peasants, prospectors, self-educated teachers and lawyers, printers, lumberjacks, horse thieves and cattle rustlers, workers and grafters. Each was out to get what he could for himself, and devil take the hindmost. At every touch of adversity they fell apart, each on his own; there was human pity and kindness, but not a trace of community spirit. They were individualists. And they did stand the gaff.

This was the human stuff of America. It was not the stuff one would have chosen to make a nation or an admirable national character. And Americans today are the most reckless and lawless of peoples. We are also the most imaginative, the most temperamental, the most infinitely varied people. We are the kindest people on earth; kind every day to one another, and sympathetically responsive to every rumor of distress. Only Americans ever made millions of small personal sacrifices in order to pour wealth over the world, relieving suffering in such distant places as Armenia and Japan. Everywhere, in shops, streets, factories, elevators, on highways and on farms, Americans are the most friendly and courteous people. There is more laughter and more song in America than anywhere else. Such are some of the human values that grew from individualism while individualism was creating America.


The American Phenomenon

Look at this phenomenon: The United States of America. For one hundred and fifty years, Europe colonizes this continent. Then Spain holds the Gulf and Florida, Mexico, Texas, New Mexico, Arizona and California. Russia is in the north. France controls the waterways of the Mississippi valley, the fur trade and the Missouri mines. Along the Atlantic coast, between wilderness and sea, are scattered little English colonies.

Not all the English colonies rebel against England. Those that do have not much heart for the fight. The war drags along, a little wilderness war fought with valor by a few rebels and neglected by England, whose vital interests are elsewhere. An excursion of French gunboats helps decide the issue. Peace is signed, and thirteen colonies without a common interest do not know whether to unite or to be separate nations.

At this point, what would seem likely to be the future of this continent? Does it seem probable that these colonies, quarreling with one another, divided by religion, social structure and economic interests, will prevail against the great powers already in possession of this soil? Does it not appear that, if they are to survive, they must be united under a most powerful government?

Precisely the opposite occurred. The men who met in Philadelphia to form a government believed that all men are born free. They founded this government on a new principle: All power to the individual.

How can such a principle be embodied in government? There is no escape from the fact that any government must be a man, or a few men, in power over the multitude of men. How is it possible to transfer the power of the ruler to each man in this multitude? It is not possible.

This was not a problem merely of allowing common men some voice in the councils of their rulers, some power to stop their rulers in the act of using authority to the injury of common men. The intent was actually to give the governing power to each common man equally. So that in effect, the political result would be the same as in the Communist village, where each man has equal power and struggles for his own self-interest until a satisfactory balance is arrived at. The governing power of this new republic was actually to reside in the multitudes. Common men were to govern themselves. But how is it possible to embody this intent in the mechanisms of government, since any government of multitudes of men must be a man or a few men in power over the many? It is not possible.

The problem was solved by destroying power itself, so far as this could possibly be done. Power was diminished to an irreducible minimum. Governing power was broken into three fragments, so that never could any man possess whole power. The function of government was cut into three parts, each checked in action by the other two. And over these three parts was set a written statement of political principles, to be the strongest check on them all, an impersonal restraint upon the fallible human beings who must be allowed to use these fragments of authority over the multitudes of individuals.


The Casual Birth of a Nation

Not without reason, Europeans cried out that this government was anarchy let loose in the world. Not without reason, older governments refused to recognize it. Nearer to anarchy than this, no government can come and be a government. Never before had multitudes of men been set free to do as they pleased.

And the first Congress, with unscrupulous chicanery, robbed the Revolutionary common soldiers of their meager pay and put it in the pockets of congressmen and New York bankers.

What future could be predicted for such a lack of government, in such a situation?

In less than a hundred years, France and Russia had vanished from this continent. Spain had yielded Florida, Texas, New Mexico, Arizona, California. England had been pushed back on the north. The whole vast extent of this country had been covered by one nation, a tumultuous multitude of men under the weakest form of government in the world. How did this happen?

The characteristic of American history is that everything appears to happen by accident. Nothing seems planned or intended. Other nations adopt policies and pursue them; their history is formed by the clash of these policies with other planned policies elsewhere. But America moves by a kind of indirection. Always in American history the unintended, the apparently irrational, happens.

Consider a question as vital as slavery. Everywhere else in the western world, human slavery was abolished by deliberate, well-considered legislation or by decree. Whenever the question was submitted to Americans, an overwhelming majority voted against abolishing slavery. Then Lincoln was elected on a platform promising free land and a railroad to the Pacific. An old quarrel about division of power between state and Federal governments blazed at last into a war that had been narrowly averted for a half a century, and, as a war measure, slavery was abolished.


Chaos That Works

No one intended to drive the Indians from the Middle West. Again and again, in good faith, Indian tribes were established forever as permanent buffer states. That was a rational policy. Again and again, Federal soldiers evicted white settlers from lands secured by treaty to the Indians. But there was no control over individualism, and the Indians vanished.

California was torn from Mexico, almost as a personal adventure, at a time when no one dreamed there was gold in those foothills and thoughtful men knew the soil was worthless because America already had far more land than Americans could use, and for centuries to come California’s population could not be large enough to be a market for farm products.

Aroused by private, selfish propaganda and inspired by democratic ideals, Americans rushed to war to free Cubans from imperial tyranny, and found that they were fighting the Filipinos to keep them from freeing themselves. Thus America became an empire and a world power. Such instances are multiplied by hundreds, by thousands. Everywhere you look at American history you see them. There is no plan, no intention, no fixed policy anywhere; this is anarchy, this is chaos. It is individualism. In less than a century, it created America.

For seven years I have been looking at America. I had spent more than thirty years in my own country, before, and I had traveled over it everywhere and lived in many of its states, but I had never seen it. Americans should look at America. Look at this vast, infinitely various, completely unstandardized, subtle, complex, passionate, strong, weak, beautiful, inorganic and intensely vital land. How could we be so bemused by books and by the desire of our own minds to make a pattern, as to apply to America the ideology of Europe?

With some rough approximation to fact, Europeans can think in terms of Labor, Capital, System, and the State. One can speak of Labor in Paris, where the working class is rigidly distinct from other classes; in England, where their very speech sets them apart; in Venice, where only the son of a gondolier may become a gondolier.

“Capitalist” is a word of some meaning in those countries, where, within a social framework only slightly shaken, men with money have won those upper levels held yesterday by the aristocrat. There is a profit system, where business has replaced the feudal system. The state is a shorthand symbol for many facts, where dictators control a regimented social and economic order by means of a bureaucracy.

In America a man works, but he is not Labor. A hundred million men, working, are not Labor. They are a hundred million individuals with a hundred million backgrounds, characters, tastes, ambitions and degrees of ability. Each of them, amid the uncertainties, catastrophes and opportunities of an inorganic society, creates his own life and finds his own status as best he can.


The Scattering of Ownership

An American raised wheat, but he was not the Wheatgrower. In every state of this Union, men of every race and circumstance and mind, by every possible variety of method and with many varying needs and many ends in views, raise wheat. All of them are not the Wheatgrower. Men raise cotton, men grow oranges, men plant soybeans; they are not Agriculture.

The Capitalist cannot be found; he does not exist. Men of many different minds and for many purposes, or by accident or luck, create huge business and financial organizations, and fight to draw profits from them. But here everything is fluid, changing and uncertain; nothing is static and secure. Here is no solidly established class, holding lower classes steady like cows to be milked. To capture control over these American multitudes is not possible, because no control exists to be captured. As long as our form of government stands, there can be no such control. Every business or financial undertaking must serve these unpredictable multitudes and swiftly change to serve their changing desires, tomorrow and tomorrow and tomorrow, or rivals will rise from the multitudes and destroy it.

Ownership must constantly be fought for and defended, and in this very struggle ownership has melted away; it has become so scattered and diffused through the multitudes that no one can say where it begins or ends, and the ultimate destination of profits from industry, if there be one, cannot be discovered. Economic interests intermingle, the debtor is also the creditor, the producer is the consumer, the insurance company raises wheat, the farmer is selling short on the Board of Trade.


The Boundaries of Wealth

A few thousand men in this struggle and confusion apparently possess enormous sums of money. But look for this money and it is not there, it is not solid actuality; it is not the tangible property of a rentier class, or the Junker’s hold on vast stretches of earth. It is dynamic power pouring through business and industry, and like the power that drives a machine, if it is stopped it vanishes. These vast fortunes exist only as dynamic power, and this power, too, must serve the desires of the multitudes. American wealth is innumerable streams of power, fed by small sources and great ones, flowing through the mechanisms that produce the vast quantities of goods consumed by the multitudes, and the men who are called the owners can hardly be said even to control the wealth that stands recorded as theirs, for its very existence depends upon satisfying chaotic wants and pleasing unpredictable tastes. Fortunes that were making good hairpins vanished when American women cut their hair.

Some thousands of men in America direct fragments of economic power as best they can, and these men draw out of the streams of this dynamic power as much tangible wealth as they and their families can consume. Many of them draw out vast sums, beyond any man’s power to consume, and use these sums to build hospitals, libraries, museums, or for unique and inestimable service to music, science, public health. Many of them spend stupidly and wastefully as much as can possibly be spent in the most luxurious and decadent manners of living, and this spectacle is infuriating.

All these men who, in their various ways and for various purposes, struggle to direct American industry are expensive, in that they draw large sums of actual money from the streams of productive power and pour these sums back into the streams again by spending them for their own individual purposes—often purely selfish purposes. But a bureaucracy is expensive too. The bureaucracy that is necessary to controlling in detail, and according to a plan devised by men possessing centralized economic power, all the processes of business, industry, finance and agriculture, is stupendously expensive.

Such a bureaucracy is costly not only in ever-mounting pay rolls but in human energy. For it must take great and ever-increasing numbers of men from productive activity and set them to dreary work amid coils of red tape and masses of papers recording what other men have done or may be permitted to do. Also, bureaucracies are stupid and sluggish impediments to the whole range of human activities, as anyone knows who has struggled to move under their clogging weight in Europe. Bureaucracies slow down, impede and postpone the realization of the multitude’s desires because they are not compelled, as in this American chaos business and industry were compelled, to serve those desires or perish.

This American chaos of released human energies has been going on for little more than a century, less than half of this country’s past. In that time it had created America and made America the richest country in the world. Where has this wealth come from?

Americans have been exploiting the natural resources of half a continent. And this exploitation is continuing now and should resume its accelerating rate of speed, for our untouched natural wealth is enormous. But natural resources alone do not explain our relatively greater wealth, for while Americans have been exploiting America, Europeans have been exploiting Asia, Africa, South America, the West Indies, the East Indies and the South Seas.

No such riches poured into American hands as Mexico gave Spain. There are mines in Burma, China and Australia as well as in Nevada. California’s gold did not outweigh South Africa’s diamonds. There are coal and iron in Britain and in the Saar, inexhaustible oil in Persia, Mosul, Azerbaijan and Venezuela. The great forests of the world were not in America. No soil on earth is as productive as Egypt and the Sudan. Coffee, rubber, sugar, rum, spices and copra and tin paid dividends. India returned some profit, and Indo-China was not a loss to France, nor the East Indies to the Netherlands. I find it difficult to see that Americans exploited more natural resources than Europeans did.


Land Plus Labor

Free land will not explain our wealth. Wealth comes not from land, but from labor on the land, and subject populations toil, perhaps, even more industriously than free men. Incidentally, there was little free land in America. Speculators got most of good land and held it for good prices. The Homestead Act was passed in 1862, when only the supposedly uninhabitable Great American Desert remained, and twenty-eight years later the last of the Great American Desert was settled. Two decades after that, I, myself helped to sell the virgin land of California for prices ranging to $600 an acre.

Perhaps America is the richest country because it is one country with no trade barriers drawn across it. Perhaps it is the richest country because Americans welcomed and exploited the industrial revolution as no other people did, and perhaps they were able to do this because they were not hampered by frontiers, class distinctions or the weight of bureaucracy. The fact that America is the richest country is not alone so important; England is rich, and so are France and the Netherlands. It is more important that America is the country of the richest population in the world.

Unrestrained selfishness should logically build up vast wealth of a few and submerge the multitudes into deeper poverty. The rich should grow richer and the poor, poorer. There is less disparity, now, today, between the richest American and the common American in enjoyment of wealth than there was between Jefferson at Monticello and the Far Western settler in Kentucky.


A Share the Wealth Experiment

It appears that individualism tends to a leveling of wealth, a destroying of economic inequality. This brief experiment in individualism, certainly, has not only created great wealth and an unimaginable multiplication of wealth in forms of goods and services, but it has also distributed wealth to an unprecedented and elsewhere unparalleled degree. We express this by saying that America has the highest standard of living in the world.

This, too, seems to have happened by accident. Certainly it was not planned; no one intended it. Each of us has been out to get all he could, “upon the good old plan that he shall get who has the power and he shall keep who can.”

Only once have any large number of Americans wanted to distribute wealth, and they did not intend to raise the standard of living. The standard of living had already risen too high and come down too sickeningly. They wanted to return to the prosperity of the 80’s.

This happened forty years ago. I remember it well. Hard times had ended, it seemed forever, an age of tremendous expansion in business, invention and wealth. Within the memory of my parents, who were not old, living conditions had been utterly transformed. The kerosene lamp had replaced candles; the spinning wheel was gone, the loom was used now only for making rag carpets. Machine-made cloth, machine-made shoes, factory-made brooms and soap had revolutionized housekeeping. Wire nails, wire fence, riding plows, mowing machines and binders, eight-horse-powered threshers, had made farming easy—easier, in fact, than it is today in Europe. Railroads ran from coast to coast, postal service was fast and cheap, the telegraph had gone almost everywhere. Business boomed. On Fifth Avenue rose the gas-lit palaces of millionaires. In the Middle West women wore silks on Sundays; men smoked good cigars and drove fast teams. Then suddenly, crash! The panic.

Some blamed the tariff, more blamed the railroads. In 1860, a majority at the polls had demanded subsidies for railroads. In 1890 and thereafter, railroads were bitterly hated because they were subsidized. Everyone was in debt, of course. There had been no time since the founding of this republic when Americans were not deeply in debt. Mortgages were foreclosed, banks failed, factories shut down. Charitable ladies opened soup kitchens in the cities. Farmers, after creditors took the cows, could live on potatoes and turnips until the mortgage took the farm.

A population shaken from the soil moved along the roads in covered wagons pulled by hungry horses. Organized bands of unemployed swarmed from the cities, shouting, “We have the bone and sinew! We demand our rights as working men!” City police and militia had driven them out. They terrorized smaller cities and towns. From the Rockies to the Mississippi they captured trains, crowded the cars, and cheered the unemployed train crews that took them full speed eastward. Traffic was demoralized. East of the Mississippi, dispatchers cleared all trains off their divisions, Coxey’s Army of the unemployed marched on foot to Washington.

It is all in the files of old newspapers, for those who do not remember those days. I was riding in a covered wagon and listening by the campfires, and I remember them.

Meanwhile most families went on living undramatically, as they always do everywhere, through depression, inflation, revolution and war. No one starved. Someone in America will always divide food with the desperately hungry. It may be that American kindness has grown from each American’s own sense of insecurity.


The Trust-Busting Era

But starvation is not the worst of poverty among an individualistic people. Poverty, with us, is not the chronic state of certain classes, to be borne as animals bear cold, so that it is a physical thing. Normal Americans feel an individual responsibility to think, to act, to achieve; poverty from which we can find no immediate escape is an agony of mind and spirit. After three years of that agony, most Americans knew what they wanted. They wanted to smash the trusts.

The trusts were the grandparents of our present huge corporations. We saw them as combinations in restraint of trade. A few men actually owned and controlled them, for they were new and the melting away of ownership had hardly begun. It seemed clear that the trusts caused our misery, for everyone had been prosperous while the trusts were forming, and now that the trusts were solidly there, everyone was poor.

“Bust the Trusts!” we shouted. Our champion against them was the silver-tongued orator, William Jennings Bryan; his weapon was free coinage of silver at a ratio to gold of 16-to-1. We wanted to destroy the trusts and distribute their wealth, and it was quite true that currency inflation would have distributed wealth and destroyed it.

That was the fiercest political battle in the history of this republic. Rich men had actual power then, and, naturally they defended their money. They fought for it openly and furiously, and by the narrowest margin they saved it. They defeated Bryan. The multitudes of Americans had made their one effort to distribute wealth, and had failed.

Yet wealth has so increasingly been created and distributed that today, harassed as we are by personal anxieties and seriously alarmed by the public debt, few Americans would refuse help from public funds to any family as destitute of proper food, clothing, shelter, medical care and financial safety as the majority of American families were then.

Today America, and only America, offers every child free schooling to the gates of college. Only America has a free public-library system, with an extension service to villages and farms. Only America has free radio programs and unlicensed, untaxed radios. Common men elsewhere would hardly expect to own a radio. Except the British Empire, only America has an uncensored press.

The telegraph, the electric light, the silk stocking, lipstick and rouge, fresh vegetables and fruits in winter, the icebox, and the milk bottle, the gas range, ready-made clothes, the sanitary mattress, the seamless sheet, wallpaper, the toothbrush, the leather shoe, moving pictures, ice cream, and a thousand other things to which Americans are so accustomed that we do not see them, all testify to such a distribution of wealth in this individualistic country as no other people have dreamed of enjoying.


The Closing Gap

Twenty-five years ago, the automobile was a rich man’s prerogative; it still is, everywhere but here. In America, the anarchy of individualism had so distributed automobiles that California is overwhelmed by scores of thousands of penniless families arriving in them, and hunger marchers do not march but travel in trucks. And these people should have automobiles; that is my point. They should have them, and individualism has somehow, without plan or any such definite purpose, seen to it that they do have them.

Twenty-five years ago a majority of Americans bathed in the washtub on Saturday nights and lighted their way to bed with a kerosene lamp; today our intellectuals point indignantly to an America that has left more than 2,000,000 farm houses without modern bathrooms or electric lights. Something, they say, must be done about this.

There must be more than 2,000,000 American families that still use the washtub and the kerosene lamp. They should have plumbing and electricity. They should have automatic central heat, electric refrigeration, air conditioning, and every other form of material wealth that may be imagined and created to serve them in the future. There is still far too much economic inequality; the gap between the rich and poor has not been sufficiently narrowed. Something certainly should be done to distribute wealth, to raise the general standard of living, to improve living conditions for the poor and to give everyone a more abundant life. But that is precisely what this anarchy of individualism has been doing, increasingly doing for more than a century. After looking at this unique American experiment, I think it can stand on its record.

We look too much at charts and figures. We should look at America. My farmhouse is near a village of 800 people, in a submarginal farming community technically known as rural slums in the Ozarks. Not sixty persons in this town would appear in statistics above the “line of subsistence.” Yet this village has electric lights, a water and a sewer system, a paved main street. It offers a free high-school education to every child and brings the country children to it in free buses. With not twenty exceptions, the houses are pretty houses, well cared for, with lawns and flowers, plumbing, iceboxes, telephones, radios. Nearly every family has an automobile. The washerwomen use electric washing machines. Most of the men wear overalls, except when they dress up, but you’ll find no more charming or more smartly worn clothes than the women’s inexpensive dresses. They all wore silk stockings.

This village is no exception. Drive along the highways and you see them every few miles. The greater part of most of them is below the statistical line of subsistence.

There is nothing new in planned and controlled economy. Human beings have lived under various forms of it for 6000 years. The new thing is in the anarchy of individualism, which has been operating freely only in this country for less than a century and a half.

I look at it now, and ask myself whether individualism has enough social vitality to survive in a world turning back to the essentially medieval, static forms. Can individualism, which by its very nature has no organization and no leader, stand against the attack of an organized, disciplined and controlled group?

The spirit of individualism is still here. Not half the reported unemployed have ever appeared on the reported relief rolls; somewhere those millions who have not been helped are still fighting through this depression on their own. Millions of farmers are still lords on their own land; they are not receiving checks from the public funds to which they contribute their taxes. Millions of men and women have quietly been paying debts from which they asked no release, and somehow being cheerful in the daytime and finding God knows what strength in themselves during the black nights. Americans are still paying the price of individual liberty, which is individual responsibility and insecurity.

These unnoticed Americans are defending the principle on which this republic was founded, the principle which created this country and has, in fact, brought the greatest good to the greatest number. By such personal courage and endurance, the American principle has been successfully defended for more than a century. But during that century, the western world was turning toward democracy. The test of strength comes now, when half of Europe has turned back from democracy to the old stability in which the multitudes, having no authority, have no responsibility, but leave both the power and the burden to a few men in control.